Mar 1 2009
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Sociedad

8 de Março, para uma ilustre desconhecida

Carlos Grassioli*

Este ocho de marzo coinciden el Día Internacional de la Mujer y –segundo domingo del mes– en muchos países el Día de la Madre. El comercio se prepara para lo suyo, los restoranes reservan mesas, los seudo homenajes serán la orden del día. Grassioli, como debe de ser, no separa las fechas: las funde y unifica –emocionadamente.
Texto en portugués.

A primeira de 10 irmãos de uma família camponesa, simples. Semi-alfabetizada em casa, educada com austeridade dentro dos preceitos da religião católica, trabalhou na roça desde a infância até se casar. Adolescente ainda, seu maior sonho era viajar, conhecer o mundo.

Vítima de uma educação patriarcal e religiosa, administrava silenciosamente sua rebeldia. Quando parava para descansar do trabalho pesado da roça, isolava-se à sombra do mandiocal com o pensamento voltado para um único ponto: Como driblar um destino já traçado desde seu nascimento e que se anunciava implacável?

Era deus no céu, o pai-patrão e o pároco na terra. Sair de casa só casada. Casou aos 18 anos e teve, como sua mãe, 10 filhos.

Amou e era amada pelo marido, mas deixou sempre claro que casar e constituir uma família nunca tinha sido, para ela, um projeto de vida.  Amava incondicionalmente cada filho e os defendia como uma leoa, mas nunca fez apologia da maternidade.

Seus dias começavam no interior de um quarto modesto, quando seu sono era impreterivelmente interrompido, pelo cantar do galo, às 6h da manhã. Só saia do quarto depois do marido, mas antes certificava-se de que a cama estivesse bem arrumada, tudo em sua volta no seu devido lugar, intacto e organizado como se fosse uma pequena capela pobre.

Aparentemente nada lhe faltava. Gostava de festa, baile, música, circo mas não tinha roupa apropriada. Mulher do sapateiro, mas não tinha sapato. Apta no pudor de calar certas verdades, dizia que não tinha tempo. Tinha sim, o presente. Que, por ser absoluto, lhe tirava o passado e lhe negava qualquer futuro.

Lia e escrevia com certa dificuldade, no entanto, tendo o sol e o sino da pequena igreja como relógio, sabia o nome certo das horas.

A hora de levantar, a hora de tirar o leite, a hora de dar café ao marido e aos filhos, a hora de levar a vaca ao pasto, a hora de capinar a horta e a mais crucial: a hora de fazer o milagre diário da multiplicação e servir na mesa o alimento para toda a família.

A hora de tirar a mesa e lavar a  louça, a hora da pequena sesta,  a hora de fazer o pão, a hora de costurar, a hora de fazer o jantar, tirar a mesa e lavar a louça, a hora de remendar roupas, a hora de colocar os filhos na cama, a hora de assear-se, guardiã do fogo, a hora de apagar a última brasa, a hora de rezar, a hora de soprar a última lamparina e apagar a noite, a hora de dormir.

A hora de começar tudo outra vez, sem a menor alteração, dia após dia, ano após ano, às 6 horas da manhã.  

Protagonista de um único espetáculo, privado, num texto simples, tentava passar aos filhos a idéia de que a felicidade poderia estar, também, no ritual diário de repetir os gestos simples da vida. E era, justamente para o aspecto mais simples da vida, que ela reservava uma certa gravidade,  um exercício sagrado. À "seriedade dos homens" ao contrário, reservava todo seu senso de humor. Como um Cervantes de saia, conhecia muito bem a natureza humana.

Os filhos assistiam, às vezes espantados, a esse estranho espetáculo doméstico de malabarismo e acrobacia através do qual, junto com o pão de cada dia, recebiam um pouco de circo.

Mas era em determinados momentos, geralmente à noite, enquanto remendava à luz do lampião, que era surpreendida como que suspensa, estátua, parada, penélope da roça, numa mão a agulha na outra o pano. Quase um grito, um gesto parado no ar. O olhar longe, muito longe, refletia êxtase, inocência, espanto.

A felicidade, então, assumia sua forma maior: imensas pontes, mares, navios, portos, cidades grandes, desconhecidas. Totalmente envolvida no seu universo particular, lá estava ela, de novo adolescente à sombra do mandiocal. perdida num mundo tão distante, nota dissonante no concerto da roça, no seu noturno,  quase uma fantasia. Passava lentamente do quase alegro para um adágio triste. Saudades era sentir falta de lugares que nunca viu, de coisas que nunca teve.

O olhar, então, era deseperança, desamparo, fragilidade, a insustentável leveza de uma folha ao vento. Uma espécie de dor diferente, desumana, a dor da terra talvez.

Depois de criar seus 10 filhos, assim que o último saiu de casa, o destino mais uma vez implacável, e agora trágico, bateu-lhe à porta entregando-lhe dois netos, crianças órfãs de pai e mãe. Criou-os como se filhos fossem.

Terminou de criar os netos, adotou informalmente uma menina, filha da miséria, e a criou até a universidade.

Seu espírito de solidariedade era tal que se estendia  além da vida. Toda vez que morria alguém no pequeno povoado, era chamada para lavar, vestir e pentear o morto, para o desconsolo dos filhos que viam nisso uma tarefa menor, grande equívoco. Sempre que voltava desse humano ofício costumava comentar com os filhos que a olhavam perplexos: “Fulano(a) ficou tão bem, parece que está dormindo”.

Sua arte não se limitava a imitar a vida, disfarçava também, muito bem, a morte.

Elvira, que também é Domênica, teve poucos domingos, poucos momentos de paz. A vida, um estado de sítio quase constante. Cada dia uma nova batalha sem trégua. Nem santa nem mártir, uma mulher como milhares de mulheres do planeta, que se fossem comparadas a uma árvore, teriam a grandiosidade e a generosidade de  velhas figueiras à beira da estrada.

Quase um século de existência. Tanto tempo para tão pouca vida.

Finalmente, aos 95 anos, driblou o destino. Não por vingança nem por ironia, mas por direito adquirido ou por "tempo de serviço", decidiu ausentar-se em vida. Já não sabe mais quem é, onde está ou que idade tem. Inconsciência a contemplou com a atemporalidade…

Já não era deste mundo.  Agora está, também, fora do tempo. Nem um sinal de sofrimento.   Quando não está dormindo, está cantando ou rindo, baixinho, o tempo todo, num suave murmúrio.

Teus olhos esbranquiçados pela pátina do tempo, como um velho espelho, cansado de refletir imagens de quase 100 anos de existência, já não me olham mais.

Assim, quase cega, com teus cabelos brancos de seda, ralos, mais pareces um velha boneca de pano, desbotada, descabelada. Uma mimosa palhacinha velha, de ilusões perdidas. Com tua alma Feliniana, construístes  tua "persona" mantendo, intacta, tua eterna expressão de inocência e espanto de uma Giulieta Massina, Giulieta dos Espíritos. Nunca te vi tão linda!

Sem dúvida nenhuma, fostes sábia ao excluir, para teu "grande final" qualquer possibilidade de tragédia. Nem ópera bufa. Escolhestes o circo. Afinal, doutora e mestra da corda bamba, como tantas outras mulheres neste mundo, conhecestes muito bem os perigos de viver.

Há 60 anos atrás me  destes a vida, num dia 8 de março. Eu não merecia tanto.

É para você toda minha dedicação hoje. Quero, finalmente, render-te homenagem te oferecendo uma festa, uma festa muito especial. Antes, sirvo-me de uma fatia do teu tênue e delicado delírio, para com minhas próprias mãos, tecer de céu, bordar de estrelas e luzes o teu vestido. Assim, vestida a rigor, já estarás pronta para outra festa, a última da tua condição humana, quando, com toda dignidade deste mundo, estarás rompendo o contrato entre o sopro divino e o barro, para voltar ao pó.

Enquanto isso, com todo o tempo do mundo, e agora com roupa apropriada, compensas a efemeridade de quase um século de existência com a eternidade que te confere este teu  delicado delírio de riso e canto.

Estendo a homenagem e convido para tua festa, todas as "Elviras Domênicas" de todas as raças, cores e religiões que, assim como você, nunca serão nomes de ruas. Porque vocês são maiores. São estradas que atravessam continentes, caminhos que cruzam e se entrecruzam, que perpassam o planeta…

Juntem-se todas, hoje, à minha mãe. Juntem seus risos, seus delírios, seus cantos. Chamem Violeta Parra para acompanhá-las ao violão,  chamem Clementina de Jesus para regê-las, e cantem, cantem a alegria, façam a festa. E quando a noite chegar, cantem todas, baixinho, um acalanto, um blues, uma berceuse, um canção de ninar, um mantra. Envolvam, embalem e aliviem a dor da terra. Façam o milagre, que este não compete ao santo nem ao divino mas a vocês, somente a vocês humanos seres especiais, mulheres, ilustres desconhecidas.

Façam com que a humanidade toda, esta noite, pelo menos esta noite, durma em paz!

Dedicado à  Elvira Domênica, minha mãe, e a todas  “Elviras Domências”, ilustres desconhecidas deste mundo, no dia internacional da Mulher.

*Escritor.

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1 Comentário

Comentarios

  1. marise
    5 marzo 2009 15:39

    Me senti um pouco Elvita tbm
    Texto maravilhoso