Jun 2 2009
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Sociedad

Brasil: professores de ética

Frei Betto*

Una lección se desprende de esta crónica: la ética no es una asignatura académica, en su sentido más profundo –y no es necesario ser cristiano para comprenderlo, como podría creerse por la biografía de su autor– se trata de elegir cómo queremos vivir nuestra vida. Opción que demanda actos: hechos son amores y no bellas palabras, reconoce la sabiduría popular. En fin, juzgue el lector. (En portugués y castellano).

É tautológico falar em falta de ética no Congresso Nacional. Os escândalos se sucedem, do deputado que está “ se lixando” para a opinião pública aos funcionários do Senado que, a exemplo de notórios senadores, ostentam um padrão de vida muito superior a seus vencimentos e à renda declarada.

Felizmente há exceções. Lástima que a indignação e o protesto de parlamentares íntegros tenham pouca ressonância nas ruas. Em geral, noticiam-se farra de passagens aéreas, castelos mirabolantes, mansões paradisíacas. Poucos tomam conhecimento da coerência de parlamentares incorruptíveis, incapazes, inclusive, de aceitar caixa dois em suas campanhas eleitorais.

A corrupção decorre da falta de caráter. Esta se manifesta, de modo especial, quando a pessoa se vê investida de uma função de poder, do policial que extorque o comerciante ou do delegado que embolsa pagamento de fianças ao empresário que suborna o funcionário público para obter licitações fajutas; do prefeito que se apropria dos recursos da merenda escolar a parlamentares que se julgam no direito de pagar, com dinheiro público, o salário de sua empregada doméstica.

Como dar um basta em tanta maracutaia? Difícil. O ser humano padece de duas limitações insuperáveis: defeito de fabricação e prazo de validade. É o que a Bíblia chama de “pecado original”. Sempre haverá homens e mulheres desprovidos de caráter, de princípios éticos, dispostos a não perder a primeira oportunidade de enriquecimento ilícito. A solução não reside no cultivo das virtudes, que tem sua importância. Fosse assim, os colégios religiosos, onde estudaram Collor e Maluf, seriam fábricas de anjos.

A solução é criar, via profunda reforma política,  instituições que inibam os corruptos e mecanismos de controle popular. Em suma, tornar a nossa democracia, meramente delegativa, mais representativa e, sobretudo, participativa.

Enquanto a solução não aparece, sugiro que convidem, para ministrar um curso de ética no Congresso Nacional, Suas Excelências José Gomes da Costa, Rodrigo Botelho, Francisco Basílio Cavalcanti, Clélia Machado, Sebastião Breta e Fagner Tamborim.

O que essas pessoas fizeram não deveria ser considerado extraordinário. No entanto, frente aos casuísmos, ao nepotismo, à malversação,  ao cinismo de parlamentares tentando justificar o injustificável, convém propalar o exemplo desses professores de ética.

José Gomes da Costa é gari da prefeitura de São Paulo. Ganha R$ 600 por mês. Vinte e seis vezes menos que um deputado federal. Com este salário, sustenta a si e três filhos. Dia 18 de maio último, ao varrer a rua, encontrou um cheque do Banco do Brasil no valor de R$ 2.514,95. José precisaria trabalhar quatro meses, sem nenhuma despesa, para acumular esta quantia. Procurou uma agencia do banco e devolveu o cheque. Motivo: vergonha na cara.

Gari, Rodrigo Botelho encontrou, em 26 de maio de 2008, durante Campeonato Mundial de Tênis de Mesa, no Rio, mochila com R$ 3 mil em dinheiro. Viu o nome do dono nos documentos, chamou-o pelo microfone e devolveu. Rodrigo é normal, tem caráter.

Francisco Basílio Cavalcante, faxineiro do aeroporto de Brasília, pai de 5 filhos, ganha salário mínimo. No dia 10 de março de 2004, encontrou uma bolsa de couro no banheiro do aeroporto. Dentro, US$ 10 mil e um passaporte. Se fosse juntar o salário que ganha, sem gastar um só centavo, levaria 3 anos e 4 meses para obter igual soma.

Francisco declarou: “Tem que ser assim. O que não é nosso precisa ser devolvido. Um dinheiro que não é da gente não pode ser do bem. Não pode trazer felicidade”.

Clélia Machado, 29, é auxiliar de serviços gerais e faz bico como manicure. Sozinha, cria duas filhas, uma de 7 anos, outra de 9. Sua renda mensal não chega a R$ 550. Todos os dias ela faz a faxina do banheiro do posto da Polícia Rodoviária Federal em Seberi (RS), onde trabalha há três anos. A 11 de março de 2008, encontrou, junto à privada, um pé de meia enrolado em papel higiênico. Dentro, US$ 6.715.

Clélia entregou os dólares aos policiais. Entrevistada, declarou: “Bem que podia ser meu de verdade. Mas já que não me pertencia, devolvi na hora. Era o certo a fazer.”

O gari Sebastião Breta, 43, da prefeitura de Cariacica (ES), devolveu os R$ 12.366 mil que achou num malote no lixo. O nome do homem que fora roubado estava gravado numa etiqueta. Sebastião ganha salário mínimo.

Indagado se pensou em ficar com o dinheiro, disse: “Nunca. Desde a primeira vez que vi sabia que devia devolver. Quando não consigo pagar as minhas contas fico doido, pensava o tempo todo como estaria o dono do dinheiro, imaginava que ele também não podia pagar suas contas porque tinha perdido tudo. Eu e minha mulher não conseguiríamos dormir à noite. Acho esquisito pegar o que é da gente”.
Fagner Tamborim, 17 anos, entregador de jornais na cidade de Pirajuí, a 398 km de São Paulo, ganha R$ 90 por mês. Enquanto pedalava sua bicicleta, encontrou na rua um malote com R$ 6 mil. Devolveu-o ao dono. “Vi que tinha muito dinheiro e cheques. Levei pra minha mãe, que ligou para o banco.”

O melhor do Brasil é o brasileiro, não necessariamente nossos parlamentares.

En castellano:

Brasil: profesores de ética

Es tautológico hablar de falta de ética en el Congreso Nacional. Se suceden los escándalos, desde el diputado que está ‘ensuciándose’ ante la opinión pública  hasta los funcionarios del Senado que, a ejemplo de notorios senadores, ostentan un patrón de vida muy superior a sus ingresos y a la renta que declaran.

Por suerte hay excepciones. Lástima que la indignación y la protesta de parlamentarios íntegros tengan poca resonancia en las calles. En general se anuncian el despilfarro de pasajes aéreos, castillos fabulosos y mansiones paradisíacas. Pocos llegan a enterarse de la coherencia de parlamentarios incorruptibles, incapaces incluso de aceptar segunda contabilidad en sus campañas electorales.

La corrupción  proviene de la falta de carácter. Ésta se manifiesta, de modo especial, cuando la persona se ve revestida de una función de poder, desde el policía que extorsiona o del comerciante o del delegado que se embolsa cobros de fianzas hasta el empresario que soborna al funcionario público para obtener licitaciones viciadas; desde el alcalde que se apropia de los recursos de la merienda escolar a los parlamentarios que se creen con el derecho a pagar con dinero público el salario de su empleada doméstica.

¿Cómo poner un alto a tantas artimañas? Es difícil. El ser humano padece de dos limitaciones insuperables: defecto de fabricación y plazo de validez. Es lo que la Biblia llama ‘pecado original’. Siempre habrá hombres y mujeres desprovistos de carácter, de principios éticos, dispuestos a no perder la primera oportunidad de enriquecimiento ilícito. La solución no reside en el cultivo de las virtudes, aunque tengan su importancia. Si fuera así los colegios religiosos donde estudiaron Collor y Malluf serían fábricas de ángeles.
 
La solución es crear, mediante una profunda reforma política, instituciones que inhiban a los corruptos y mecanismos de control popular. En resumen, convertir nuestra democracia, meramente delegativa, en más representativa y, sobre todo, participativa.
 
Mientras aparece la solución sugiero que inviten, para dictar un curso de ética en el Congreso Nacional,  a Sus Excelencias José Gomes da Costa, Rodrigo Botelho, Francisco Basilio Cavalcante, Clélia Machado, Sebastián Breta y Fagner Temborim.

Lo que esas personas hicieron no debiera ser considerado como extraordinario. Sin embargo, ante los casuismos, el nepotismo, la malversación y el cinismo de parlamentarios tratando de justificar lo injustificable, conviene propagar el ejemplo de estos profesores de ética.
 
José Gomes da Costa es barrendero de la alcaldía de São Paulo. Gana US$ 250 al mes. Veintiséis veces menos que un diputado federal. Con ese salario sustenta a sus tres hijos. El día 18 de mayo pasado, al barrer la calle, encontró un cheque del Banco del Brasil por valor de US$ 1,000. José necesitaría trabajar cuatro meses, sin gastar nada, para acumular dicha cantidad. Pero buscó una agencia del banco y devolvió el cheque. Motivo: vergüenza en la cara.
 
Rodrigo Botelho encontró, el 26 de mayo del 2008, durante el Campeonato Mundial de Tenis de Mesa, en Rio de Janeiro, una mochila con más de mil dólares en billetes. Vio el nombre del dueño en los documentos, lo llamó por teléfono y se lo devolvió. Rodrigo es normal, tiene carácter.

Francisco Basilio Cavalcante, recogedor de basura en el aeropuerto de Brasilia, padre de cinco hijos, gana el salario mínimo. El 10 de marzo del 2004 encontró una bolsa de cuero en un sanitario del aeropuerto. Dentro había US$ 10 mil y un pasaporte. Para obtener una suma igual debería ahorrar todo lo que gana, sin gastar ni un centavo, durante tres años y  cuatro meses. Francisco declaró: “Así debe ser. Lo que no es nuestro debe ser devuelto. Un dinero que no es propio no puede ser bueno. No puede traer felicidad”.

Clélia Machado, de 29 años, es auxiliar de servicios generales y hace sus pinitos como manicurista. Vive sola y está criando dos hijas, una de siete y otra de nueve años. Su salario mensual no llega a los US$ 250. Todos los días ella hace la limpieza del sanitario de la estación de la Policía de Tráfico Federal en Seberi (RS), donde trabaja desde hace tres años. El 11 de marzo del 2008 encontró una calza de media enrollada en papel higiénico, y dentro US$ 2.800. Clélia entregó los dólares a los policías. Al ser entrevistada declaró: “Cierto que hubiera podido ser mío de verdad. Pero como no me pertenecía lo devolví rápidamente. Era lo correcto”.

El barrendero Sebastián Breta, de 43 años, de la alcaldía de Cariacica (ES), devolvió los US$ 5,000 que encontró en un maletín en la basura. El nombre del hombre que había sido robado estaba grabado en una etiqueta. Sebastián gana el salario mínimo. Preguntado acerca de si no había pensado en quedarse con el dinero, dijo: “Jamás. Desde el primer momento en que lo vi sabía que lo iba a devolver. Cuando no consigo pagar mis deudas quedo dolido, y pensaba todo el tiempo en cómo se sentiría el dueño del dinero; imaginaba que tampoco él podría pagar sus deudas porque lo había perdido todo. Yo y mi mujer no hubiéramos podido dormir por la noche. Juzgo necesario devolver lo que es de otro”.

Fagner Tamborim, de 17 años, repartidor de periódicos en la ciudad de Pirajuí, a 398 kms de São Paulo, gana US$ 35 al mes. Mientras pedaleaba en su bicicleta encontró en la calle un maletín con US$ 2.500. Se lo devolvió a su dueño. “Vi que tenía mucho dinero y cheques. Se lo llevé a mi madre, quien telefoneó al banco”.

Lo mejor del Brasil es el brasileño, no necesariamente nuestros parlamentarios.


* Escritor, autor, em parceria com Verissimo, Cristovam Buarque e outros, de O desafio ético (Garamond), entre outros livros.

Publicado originalmente en América Latina en movimiento (http://alainet.org). Traducción del portugués: J. L. Burguet.

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