Abr 14 2010
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Cultura

Carta para uma guerreira

Carlos Grassioli.*

Em casa de novo, a mala desfeita, tudo no lugar. Menos eu, que olho a bela paisagem lá fora como se fosse pura ficção. No plano pessoal, eu diria que a viagem de 22 dias entre Buenos Aires e São Paulo foi um sucesso.
Em Buenos Aires como em São Paulo… ou no interior do Pará, tudo é mundo, e muitas vezes até consigo seguir o conselho e deixo em casa a indignação, antes de partir para uma viagem.

Mas como não ficar indignado diante da perda total da dignidade humana, personificada por aquela velha índia, desdentada, com mais de 90 anos,  um xale esfarrapado sobre o ombro, tremelicando e pedindo esmola em plena noite “Portenha”.

Da mesma forma, foi  impossível ficar indiferente diante da personificação de um pequeno —mas absolutamente  representativo— “ovinho” da serpente responsável pela mais sangrenta ditadura latino-americana  pela qual passou a Argentina. Um ser assombroso que espero nunca mais ver pela frente. Esses ovinhos existem e estão por aí… Cuidado!

Em São Paulo, um outono normal: a efervescência cultural e rever amigos.

Mas e o Rio de Janeiro, que dificilmente continuará lindo depois dessa? Como ficar indiferente?

Lembro-me de que quando aconteceu a tragédia Haitiana eu escrevi um texto e pensei enviar ao jornal, mas  desisti ao mostrar para alguns amigos, que comentaram que eu deveria ter mais cautela ao abordar assuntos tão complexos. Transcrevo a seguir um dos parágrafos, onde faço uma comparação entre o Brasil e o Haiti:

“O Haiti é só mais um bairro pobre do mundo, muito parecido com os bairros pobres brasileiros, localizados em zonas de risco, onde acidentes naturais absolutamente previsíveis acontecem freqüentemente, provocando tragédias incalculáveis que evidenciam, acima de tudo, o lado mais cruel e desumano de um mundo desigual que, historicamente, se organiza priorizando interesses de uma minoria,  constituída, em sua maioria, por pessoas brancas.

Essa é pra mim uma verdade incontestável!

Não é coincidência que esses bairros brasileiros aos quais me refiro, sejam ocupados por uma população, em sua grande maioria pobre e/ou miserável, de afro-descendentes como a do Haiti!

Não é, mesmo!”

E lá em São Paulo, ainda e na semana que passou, me despedi de você, cara amiga, que partia para uma dura empreitada. E não por acaso partias tão apreensiva.

Ao chegar em casa, ligo o computador e lá está o triste-relato dos teus primeiros dias de trabalho, ao iniciares uma pesquisa sobre os possíveis impactos sociais que poderão ser causados pela construção de uma nova hidrelétrica no norte do país.

Você chora copiosamente e com todas as razões desse mundo. Uma delas é a realidade em si; outra, com certeza, tem a ver com os fantasmas do passado que agora e de novo te assombram e te fazem constatar, 40 anos depois, que pouco ou quase nada adiantou, para que esse tipo de realidade cruel e desumana mudasse, o fato de você ter arriscado a vida muitas vezes, e justamente ali, onde foste presa, torturada e fugida do país no vigor dos teus vinte e poucos anos, voltando anos depois. 

Assim como abrimos janelas da realidade que dá pra um mundo ensolarado ou  estrelado, abrimos outras que nos mostram,  tão-somente, a escuridão profunda e sobre a qual, penso eu às vezes , quando perco as esperanças,  quase nada podemos fazer. Como essa, por exemplo, que você acaba de abrir, de um “Brasil que  assusta” e que todos sabemos que existe, mas do qual só podemos ter uma dimensão mais real quando entramos em contato direto com ele.

Um “Brasil” que não tem governo (nem vergonha) nem nunca terá, se a sociedade como um todo não assumir, de uma vez por todas, a responsabilidade que lhe cabe.

Não é só o poder público. Eu, tu, ele, nós (embora tenhamos pouco)… e principalmente eles que têm muito e que pouco ou nada fazem… e que nadam em piscinas douradas.  Uns mais, outros menos, todos somos responsáveis, tanto pelas tragédias dos que morrem soterrados ou afogados, como pelos que morrem de fome e/ou de sede.

Tanta tristeza, tanto medo e quanta dor no teu relato!

Grande é minha preocupação,  porém maior é minha dor de não poder fazer nada pela tua dor, minha amiga querida. Porque a dor que você – que também tem alma de poeta – está sentindo no contato direto com a triste realidade dos excluídos, é, com certeza, o mesmo tipo de dor que muitas vezes eu vi, ainda criança, estampada no rosto de minha mãe: a dor da terra!

Que neste instante é minha também!

Mas  escrever me salva!

E estar salvo significa, também, estar em plena forma para te receber de braços abertos e fazer a festa quando voltares, com certeza, mais forte do que nunca.

Não por acaso teu nome é Maria; e então eu canto:  

“… é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana, é preciso ter sonhos sempre…”

E todos esses predicados tu tens, e de sobra, minha grande amiga e admirável guerreira. 

Abril de 2010.

* Escritor.

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