May 9 2008
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Cultura

COMO UN DIAMANTE FINO

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

É o primeiro, antigo e velho mundo mas o trem é novo e moderníssimo. O vagão, que mais parecia uma nave espacial de tão moderno, estava cheio na sua maioria de jovens, todos bem vestidos, cada um na sua! Ou no seu had-phone, lep-top, no seu livro, sua revista. Qualquer coisa que dificultasse qualquer possibilidade de comunicação espontânea.

A viagem de 400 kms, direta sem escala, de Rennes (França, região da Bretanha) a Paris, estava prevista para 2 horas de duração.

Mas não foi o que aconteceu!

O TGV (Trem de Grande Velocidade, 200 km p/h) meia hora depois da partida, foi diminuindo a velocidade parando numa pequena cidade e o serviço de informação anunciava uma parada imprevista, causada por um pequeno acidente na linha e que os passageiros poderiam deixar os vagões desde que atentassem para a chamada de reembarque.

Pertencentes a uma sociedade preparada para tudo menos para o imprevisto, os passageiros expressavam, claramente, seu desagrado. Eu me animei, quem sabe com o imprevisto, algum tipo de comunicação se estabelecesse entra as pessoas. Ledo engano! Quase todos deixaram os vagões e, sem exceção, todos de imediato, passaram a falar em seus celulares (que os franceses chamam de portables e que eu passei a chamar de insuportables).

Uma cena eu diria patética, digna de Chaplin em tempos modernos. Centenas de pessoas, andando no cais da estação, de um lado para outro, falando ao telefone, sem trocar se quer um olhar, como se estivessem sozinhas, até a chamada para o reembarque quando todos voltaram a ficar, “cada um na sua!”

Terminada a viagem, a sensação era de que todo mundo falou com alguém e de que ninguém falou com ninguém.

Nem moderno, nem eterno muito menos terno! Acabou-se a prosa? O verso?….. acabou-se a poesia?

Ainda não!

Por acaso o lugar que eu havia comprado, ficava exatamente no meio do vagão, cujas poltronas fazem a divisão entre os passageiros que viajam de frente e os que viajam de costas, fazendo com que seus ocupantes fiquem de frentes uns para outros, separados por uma pequena e moderna mesa, com espaço para pequenos lanches, para escrever etc..

Um jovem de não mais de 17 anos, sentado de frente para mim, que desde o início da viagem escrevia num pequeno caderno sem olhar para os lados, para ninguém, foi uma das únicas pessoas que permaneceu dentro do vagão comigo, quando a viagem foi interrompida e que finalmente me olhou, manifestando claramente sua preocupação. Concentrado no seu escrever, não havia entendido o aviso como também não falava absolutamente nada de francês. Com meu “inglês de viagem” expliquei a ele o ocorrido que o deixou mais preocupado ainda. Temia perder a conexão em Paris, com o trem que o levaria de volta ao seu país de origem, que por sorte não aconteceu.

Não era Ludwig, mas era Frederic, da Baviera, dono de um par olhos de um azul tão intenso que remetia ao firmamento. E para surpresa mútua, aqueles dois “dinossauros da comunicação”, entabularam uma conversa tão entusiasmada e prazerosa que não viram nem a viagem, nem o tempo passar.

Escrevia no seu pequeno caderno porque havia descoberto não só o prazer de viajar como também o de escrever. Segundo ele, aquela viagem constituía-se num divisor de águas em sua vida. Tínhamos afinidades e o esforço mútuo para nos fazer entender, era compensado pelo entusiasmo e pelo teor ou conteúdo que a conversa assumia; Viagem, literatura e poesia.

As pequenas pérolas que me eram ofertadas, espontaneamente, pelo meu interlocutor, davam-me a certeza do privilégio de estar assistindo o desabrochar de um novo poeta. Um itinerante poeta menino. Enquanto ele se auto-descobria, eu me regalava, eu arregalava.

Um pouco antes de chegar à Estação Montparnasse, em Paris, considerando seu tempo restrito para a conexão, eu perguntava ao meu parceiro de viagem, se ele tinha o ticket para tomar o metrô que o levaria até a outra estação, de onde sairia seu trem para a Alemanha. Diante da resposta negativa, eu ofereci um dos meus, deixando-o um pouco constrangido diante do meu gesto espontâneo. Procurou nos bolsos o dinheiro para me reembolsar ao que eu disse que não precisava, que ele aceitasse como se fosse um pequeno presente que simbolizasse seu ingresso definitivo no mundo das viagens e sobretudo das letras, da poesia. Eu não, mas ele sim! Ele estava pronto.

Ao descermos do trem, embora em direções opostas, por acaso, também, pegamos o mesmo metrô, linha nº 4, que atravessa Paris e ao nos defrontarmos de novo, dentro da estação, então separados pelos trilhos, ele me fazia um último aceno, me mostrando o ticket, a caneta e o pequeno caderno. Meu gesto simples, de solidariedade, registrado no caderninho do poeta menino.

Ele para o norte, eu para o sul. Ele na plenitude da beleza e juventude de seus 17 anos, seguia seu destino. Eu na idade plena dos meus sessenta anos, seguia minha viagem solitária, agora mais leve, como se tivesse sido tocado por algum tipo de ar rarefeito. Minha idade era adulta mas minha vontade era criança e naquele momento eu queria mesmo era “inventar moda”, “fazer arte” mais que isso, fazer aquilo que mais gosto, desde a mais tenra infância: “tirar as pessoas do sério”.

E foi com esse espírito que adentrei ao supermercado perto de casa, para umas compras básicas. Ao entrar pelo lado, decidi cortar caminho, aproveitando o espaço aberto entre dois caixas. Não tinha, se quer, atravessado o pequeno vão quando escutei um voz aguda, esganiçada e gritada, para que todo o supermercado ouvisse, que me dizia em bom francês:
“Sim senhor, é muito bom passat por aí, mas o senhor não tem o direito” e seguia sua demonstração teatral de “generala-napoleônica “, apontando enfaticamente com o braço: “O senhor deve passar por lá onde passa todo mundo”.

Ao que eu, “Homen de la mancha”, do alto do meu Rocinante, também teatralmente mas bem humorado retrucava alto em bom som e em bom francês:
“Excuses-moi madame, mais je ne suis pas tout le monde” (me desculpe minha senhora mas eu não sou todo o mundo) e segui adiante. Deu pano pra manga, mas fiz minhas compras…

Ao sair na rua, já anoitecia e estrelas tímidas já se anunciavam num céu crepuscular de outono, ainda com resquícios de luz solar. O azul do firmamento era intenso!

Como o azul dos teus olhos menino poeta!

Em que momento de descuido deixei transparecer minha sede ou os olhos realmente são o espelho da alma para que preparasses, de pronto, tuas mãos em concha e me ofertasses em gotas cristalinas, o néctar de uma poesia jovem, ainda virgem que ávida, se prepara para a vida, para o mundo.

Não existe neste mundo combinação mais perfeita que beleza, juventude e poesia!

Esta noite que se anuncia do tamanho do universo, homem de pouca fé, pedirei a Caetano Veloso que cante pra deus proteger-te menino do rio….de algum rio da Baviera. Enquanto isso, velarei teu sono até o fundo da noite, quando abatido pelo cansaço e por uma particular tristeza de querer morrer um pouco, eu poderei, em fim também dormir… dormir e sonhar.

Sonhar que também sou poeta, porque sonhando, poderei mais que se poeta fosse. E assim, quem sabe, através de uma linguagem cinematográfica, eu poderei improvisar uma espécie de curta-metragem inspirada em Luchino Visconti, Thomas Mann e acrescentando um toque pasoliniano, para uma nova versão ou adaptação mesmo de menor grandeza, não importa.

Porque então, menino poeta da Baviera,

num devaneio quase místico

de lirismo, ternura,poesia e tristeza,

diante desta tua mais completa beleza,

eu vou querer esta noite,

somente esta noite,

a minha morte em Veneza!

Paris, setembro, 2007

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