Abr 25 2010
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Cultura

Crónicas / Bem longe do Principado.

Carlos Grassioli.*

Ruidosa, divertida… e briguenta.  Uma família brasileira normal, eu diria e de origem humilde.
Éramos os únicos hóspedes, a família e eu, naquele pequeno hotel de veraneio e fora de temporada.

A mãe imensa, uma senhora matrona, bem parladeira , mais os três filhos adolescentes: dois meninos e uma menina, cujas idades variavam dos 12 aos 16 anos.

A menina era a mais velha e privava, visivelmente de um status diferenciado dos irmãos, que reagiam e reclamavam quase o tempo todo.

Os meninos comuns, de pele clara e cabelos castanho escuro, lisos, nada que os diferenciasse de outros de sua idade, bem diferentes da irmã.

Essa, quase albina de tão branca, duas generosas bochechas rosa natural, cabelo bem ruivo e crespo revolto, coberta de sardas…e redonda como a mãe.

E tão dentuça que os dentes superiores, sempre a mostra, se negavam a ficar dentro da boca.

Tinha todos os "atributos" pra ser uma menina muito feia.
Mas ela não achava isso e não demonstrava o menor problema de auto-estima. Antes pelo contrário.

Sempre impecavelmente vestida, bem enfeitada, maquiada, mini-saias justas, mini-blusas, anéis, brincos, pulseiras, colares, sandálias com ou sem plataforma, tudo, mas tudo combinando.
Se não privava do bom gosto tinha, isso sim, o absoluto gosto bom, o prazer indubitável de se enfeitar.  

Mudava de roupa duas ou três vezes por dia, tamanha era a vaidade. Sempre com um espelhinho à mão, um narciso às avessas, não parava quieta, pra cima e pra baixo esbanjando charme, simpatia , vitalidade… e beleza, pra quem sabe ver. Comunicava-se com todo o pessoal do hotel, sem fazer distinção.

A faceirice roliça e sarapintada, personificada. Só vendo!

As folhas novas e levemente farfalhantes da grande figueira, tocadas pela leve brisa matinal, brilhavam à luz do sol, num verde clarinho fosforescente. Eu havia acabado de tomar o café da manhã, quando me sentei sob generosa sombra da velha e imensa arvore e ali me deixei ficar, sorvendo o ar puro e agradável da manhã, como quem espera a chegada de algum poema.

Que chegou mais rápido do que eu imaginava e com os cabelos em chama, tal era o efeito da luz do sol se entremeando neles.
Um poema redondo, barroco, coberto de sardas, exalando um perfume de banho recém tomado e de tão enfeitado, mais do que uma árvore de natal, …era o presépio todo.

Um pequeno furacão de pura vida que pediu licença e sentou ao meu lado.

Como sempre, vestida como quem vai a uma grande festa. E os dentes, embora de tamanhos diferentes e se acavalando uns nos outros, todos estavam ali para um sorriso generoso, cheio de luz, de alegria, deixando sair pela boca bem vermelha de batom, um vigoroso "bom dia!"

Ao que eu respondi, espontaneamente e sem pensar:

—Bom dia princesa!
—Ué, você sabe meu nome?
—Não, por que?
—Porque meu nome é de princesa, foi meu pai quem escolheu.
—Ah é? Então qual é teu nome?
—Adivinha —disse-me ela com um ar maroto e quase dançando de tanto se mexer.
—Margarete?
—Não.
—Caroline?
—Não
—Diane?
—Não.
—Então não sei.

Levantou-se, ajeitou a mini saia bem justinha, deu um rodopio e tremelicando os olhinhos, mesclando charme com frivolidade, falou macio:

—Gleicy! …Com ipicilone.
—Como? não entendi.
—G l e i c y —repetiu mais forte e pausadamente.
—E Gleicy é nome de princesa?

—Gleicy Queli, ora bolas!

E partiu, impávida, orgulhosa e cheia de si.
Tão feia…tão linda! Era tão bom tê-la por perto!

Gleicy personificava a verdadeira e exuberante alegria juvenil.
Sempre de bom humor, de bem com a vida e com a auto-estima de quem acha que tudo o que existe de bom e bonito na face da terra, foi feito ou inventado pra ela.

Tinha tudo pra se sentir um patinho feio…e era. Mas o pai havia escolhido para ela, um nome de princesa.

E princesas são sempre belas.

 
* Escritor.

 

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