Feb 22 2009
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Política

Fernando Lugo: “A mudança política era um imperativo da cidadania”

Achille Lollo*

El presidente del Paraguay habla para un periódico brasileño cumplidos nueve meses de su mandato. La charla se centra en las dificultades para reformular el Estado paraguayo, el rol de los partidos políticos, en especial de los movimentos sociales, y sobre las relaciones con Brasil. Documento que devela la calidad de estadista del mandatario.
Texto en portugués.

A eleição de Fernando Lugo, no dia 20 de abril do ano passado, pôs fim a 61 anos de hegemonia do Partido Colorado. O feito só foi possível devido a uma inédita aliança entre dez partidos políticos e 20 movimentos sociais.

Nesta entrevista, Lugo fala sobre as dificuldades de se reformular o Estado paraguaio e de sua relação com Lula e com o Brasil.

–Presidente, sua eleição foi algo de excepcional por ter quebrado a hegemonia do Partido Colorado. Poderia falar das dificuldades destes primeiros nove meses de governo?

–Depois de uma longa ditadura e de uma transição de quase 20 anos, como justamente você assinala, a mudança política era um imperativo da cidadania. Ganhar do Partido Colorado depois de 61 anos de hegemonia contínua foi muito importante para o Paraguai, porque gerou um desejo de efetiva mudança.

"Durante 61 anos, o Partido Colorado ocupou todas as instituições e se identificou com o Estado, e o que encontramos foram instituições ausentes em diferentes regiões do país. Instituições manipuladas e atreladas aos interesses do partido hegemônico.

"Além disso, diferentes setores do Estado eram dirigidos por pessoas com pouca capacitação profissional, com muita mediocridade e com pouco interesse em realizar projetos e programas que, de fato, são necessários. Por isso, o povo, em 20 de abril de 2008, votou por uma mudança política autêntica, e muitos analistas políticos admitem que a verdadeira transição começou nessa data".

–Durante a dita transição, o modelo institucional manteve as características do Estado oligárquico construído pelo ditador Stroessner. Seu governo pretende reformular o Estado?

–O que encontramos foi um Estado amorfo e sem muita eficiência. Um Estado com muitas instituições afetadas pela corrupção. Para nós, isso significou fazer muitas coisas para reconstruir o país, reformular o papel das instituições e, sobretudo, definir uma nova maneira para o Estado manifestar sua presença junto ao povo do Paraguai. Um grande projeto.

"Acredito que nestes primeiros nove meses de governo temos feito de tudo para realizá-lo, às vezes com êxitos
imediatos e outras com resultados mais lentos. Porém, trata-se de resultados que são partes integrantes de um processo autenticamente nosso, democrático e, antes de tudo, participativo. Um processo em que os partidos políticos e os movimentos sociais jogam um papel preponderante e têm uma responsabilidade fundamental na construção de um país que todos nós sonhamos e que merecemos ter".

–Muitos dizem que, para combater a corrupção herdada da ditadura de Stroessner e que se enraizou no Paraguai
durante a dita transição democrática, será necessário trocar toda a estrutura da Justiça, em particular os juízes da Suprema Corte. Qual a sua opinião a esse respeito?

–Essa história veio à tona justamente no dia 29 de março de 2006, quando, espontaneamente, mais de 40 mil pessoas ocuparam a Praça Central para pedir a substituição de todos os membros da Suprema Corte que violaram a Constituição ao permitir a irregular candidatura de Eduardo Frutos à presidência do Partido Colorado e, a seguir, tentar legitimar sua eventual candidatura à presidência da República, apesar de estar desprovido do aval constitucional. E este foi só o início.

"Por outro lado, ficou evidente que a corrupção estava muito ligada a setores da Justiça, que legitimavam a impunidade. Hoje, há mais corrupção porque há mais impunidade. Os corruptos se fortalecem porque sabem que não serão punidos, pois a Justiça não pune os crimes que eles cometem.

"Por isso, depois dos primeiros meses de governo, decidimos intervir, e hoje tomamos a firme decisão de trocar não só os juízes da Suprema Corte, mas toda a estrutura de funcionalismo judiciário. Este é um dos pontos fundamentais de nosso governo, que visa a criar um poder judiciário com sua autonomia, soberania, profi ssionalismo e sobretudo com uma Suprema Corte livre das manipulações dos partidos".

–Durante a transição democrática, a pobreza aumentou 70%, em relação ao período de Stroessner. De que forma seu governo pretende enfrentar e resolver o problema da pobreza?

–Dizer que vamos acabar já com a pobreza é um objetivo demasiado ambicioso. Quando assumimos o governo, 40% da população paraguaia viviam em estado de pobreza e quase 20% dela estavam em estado de pobreza absoluta. Por isso, fixamos como nosso objetivo programático reduzir pela metade, durante os próximos cinco anos, todo tipo de pobreza. Ou seja fazer com que o nível geral de pobreza baixe até 20%, enquanto o da pobreza extrema alcance apenas 10% de nosso povo.

"Infelizmente, não contávamos com essa inesperada crise financeira e econômica mundial, que possivelmente vai retardar nossos esforços. Nós temos um plano de desenvolvimento econômico que, por sua parte, incorpora um plano especial que atende as famílias camponesas, meio no qual a pobreza é mais enraizada. Por isso, estou certo de que iremos conseguir alcançar nossas metas, mesmo com indicadores econômicos menores.

"Por outro lado, o problema da pobreza no campo não é uma característica única do Paraguai. É, sim, uma tendência negativa planetária, determinada pelo crescimento da humanidade em ritmos acelerados, pela crise alimentar, pela crise do emprego. Enfim, elementos que conspiram contra quem quer lutar contra a pobreza. Eu acredito que nosso plano de desenvolvimento econômico vai contribuir reduzindo os níveis de pobreza que encontramos quando assumimos o governo, em 15 de agosto de 2008".

–As elites brasileiras, com o apoio da mídia, fazem de tudo para quebrar a amizade que o senhor mantém com o presidente Lula, apresentando o Paraguai como um país que não quer pagar suas dívidas; que quer somente benefícios etc. Ao mesmo tempo, a direita paraguaia faz o mesmo tentando colocar Lula contra você. Poderia falar da sua relação com o presidente Lula e do relacionamento entre os dois governos?

–Eu não sou um político, não sou um diplomata, mas estou convencido de que Brasil e Paraguai devem continuar países amigos, aliás o sentido comum me diz que devemos manter como prioridade uma boa relação com um vizinho como o Brasil. E esse fato o aprendemos por termos vivido em bairros. Uma experiência que podemos aplicar também entre os países.

"A verdade é que nosso governo procura se esforçar para manter boas relações com o Brasil, que é um país-irmão tanto em nível governamental como entre os dois povos, que são irmãos por serem unidos pela história e por um conjunto de relações que certamente vão se aprofundando enquanto vamos melhorando certos aspectos desse relacionamento.

"O presidente Lula chegou ao poder depois de uma longa experiência como líder político e sindical. Ele é um operário, e não um desses políticos tradicionais e burocratas. Por sua parte, também Fernando Lugo provém de uma experiência semelhante, isto é, das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação, com a qual temos defendido o mundo dos pobres.

"Estou convencido de que Lula e eu, Fernando Lugo, temos uma afinidade em comum, que é a alta sensibilidade pelas questões sociais. Ela nos une em nossos objetivos. Eu sempre digo ao presidente Lula que quero fazer o que ele fez no Brasil, com o Programa Fome Zero, para os paraguaios poderem comer bem e viver dignamente. O que ele, ontem, propôs aos brasileiros, nós, hoje, vamos propor aos paraguaios.

"Depois de longas ditaduras, as democracias latinoamericanas continuam com pequenos mas poderosos grupos privilegiados –que alguns chamam de direita ou de oligarquias–, que se aproveitam dos grandes benefícios que o Estado, seja o brasileiro ou o paraguaio, oferece a eles. Por isso, é evidente que não aceitam a ideia de virem a perder esses benefícios, como também seu poder e, consequentemente, a desenfreada capacidade de acumular riquezas.

"Eu quero um Estado e uma nação equitativa, em que a grande faixa de pobreza e os grupos privilegiados sejam, pelo menos, reduzidos pela metade. Não estamos pedindo uma coisa de outro mundo. Quero, apenas, que a riqueza do Estado paraguaio seja distribuída entre homens e mulheres mais equitativamente. Neste âmbito, os cidadãos podem reconquistar sua dignidade e viver no Paraguai sem ter mais de emigrar".

–Falando com um taxista, ele me disse que com Fernando Lugo todas as portas foram abertas para o povo do Paraguai. É evidente que a Igreja –isto é, a Igreja dos pobres, ligada à Teologia da Libertação– teve um papel importante na organização e no fortalecimento dos componentes do movimento popular. Poderia explicar como se desenvolveu este processo que culminou com a vitória de 20 de abril de 2008?

–No Paraguai, o movimento popular tem uma longa tradição de lutas, inclusive durante a ditadura de Stroessner, quando houve grandes manifestações de protesto que sofreram um autêntico massacre por parte dos militares do general ditador. Mesmo assim sempre sobraram homens e mulheres que se mantiveram fiéis, conseguindo sobreviver a todas as campanhas de repressão e às contínuas perseguições. Depois, quando as receitas do neoliberalismo falharam, houve, de fato, um ressurgimento dos movimentos sociais em toda a América Latina.

"O Paraguai vivenciou aquela efervescência social e foi neste âmbito que a Aliança Patriótica para o Câmbio resultou em um conjunto político pragmático, original e excepcional, e que dez partidos políticos e 20 movimentos sociais organizados, grandes e pequenos, conseguiram criar uma grande aliança e chegar ao governo em 2008. Foi assim que foi rompida a hegemonia dos partidos políticos tradicionais.

"É inegável que, hoje, no Paraguai, os movimentos sociais são um grande sujeito político apesar dos partidos tradicionais quererem exercer o poder de veto. Eu acredito que os movimentos sociais, hoje, são os grandes interlocutores em nível nacional. Um sujeito político que representa as transformações econômicas e a
mudança política. Por isso, o movimento popular vai se fortalecendo cada vez mais, porque os movimentos sociais multiplicaram sua presença e adquiriram mais capacidade de atuação, indo em direção às linhas traçadas pelo novo Estado paraguaio. Um contexto que evidentemente se passa também nos partidos políticos, vindo a ressaltar o parlamento como centro político de discussão.

"Hoje, a confluência entre movimentos sociais e partidos políticos (não-tradicionais) é o novo paradigma político que o Fórum Social Mundial de Belém evidenciou, mostrando a força e a vitalidade dos movimentos sociais, cuja dinâmica se espalhou em todos os países da América Latina e no resto do mundo. Por isso, o sonho e as esperanças para uma mudança efetiva não são mais patrimônio dos partidos políticos. Também os movimentos sociais, hoje, são sujeitos políticos voltados para as transformações e mudanças políticas".


* Periodista.
Publicado originalmente en Brasil de Fato, 19 a 25 de fevereiro de 2009 – Edição 312.

 

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