May 28 2008
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Política

“O socialismo está de volta”, afirma Hugo Chávez

Emir Sader

Em entrevista produzida para a TV Educativa do Paraná, por ocasião da reunião que fundou a Unasul, o presidente Hugo Chávez abordou vários temas da própria reunião, da atualidade latino-americana e do Forum Social Mundial.

Inicialmente ele reiterou o caráter histórico da data – 23 de maio – de fundação da Unasul e como seu caráter não apenas de integração, mas de união de todos os países da região – que ele considera realmente como um continente – marca uma virada fundamental no processo de afirmação da identidade e da estratégia autônoma em relação aos planos e às instituições em que participam os EUA. Recordou Hugo Chávez como há pouco mais de 40 anos – em 1965 – os EUA conseguiram a aprovação da OEA e, com suas tropas e as de países como o Brasil e Paraguai – sob ditaduras -, para intervir na República Dominicana e abortar um governo popular e democrático eleito pelo povo, de Juan Bosch como presidente legítimo e de militares nacionalistas, como Francisco Caamaño.

A fundação da Unasul impede que os EUA possam de novo envolver países da região em aventuras como essa, permitindo que o processo de união regional tenha também uma instância de ação comum no plano da segurança e da defesa. Recordou como, na semana anterior, tinham se reunido em Caracas os ministros de energia dos países da região, assim como agora foi criada uma comissão dos ministros de relações exteriores, que vão conformando assim um corpo político unido do continente.

Foi assinado um primeiro protocolo para a constituição da aliança militar, em que o Brasil, a Venezuela, a Bolívia e o Equador têm um empenho particular, especialmente depois da violação do território equatoriano pelo governo colombiano, situação que – recordou Hugo Chávez – se repetiu há poucos dias, com tropas da Colômbia ingressando em território venezuelano e com um avião militar dos EUA invadindo espaço aéreo da Venezuela, sobrevoando uma ilha que tem instalações militares. Hugo Chávez valoriza que o presidente colombiano Uribe tenha vindo à reunião de Brasília, disse que se aproximou a ele, lhe estendeu a mão para um aperto de mão, lhe disse que não era apenas um gesto, mas que vinha também do seu coração.

Conversaram cerca de 10 minutos, segundo Chávez, na presença de assessores dos dois presidentes. Que Uribe tenha se negado a assinar o documento de constituição de um Tratado Mútuo de Defesa, foi considerado previsível por parte de Hugo Chávez, dadas as relações de Uribe com Bush. Quando foi perguntado sobre se esse Tratado impediria que um país signatário permitisse a instalação de bases militares externas à região no seu território, Chávez disse que esses detalhes seriam abordados pela comissão encarregada de redigir o documento que será submetido aos presidentes da região no prazo de 90 dias. Acrescentou Chávez que o Mercosul, por sua vez, poderia ser a unidade econômica da Unasul. Recordou que ele tinha proposta, há tempos, a constituição de Forças Armadas Sul-americanas. Que o projeto atual não recolhe todos os aspectos da sua proposta, mas que vai na mesma direção, constituindo-se em uma nova dimensão, estratégica do processo de integração continental.

O envio da IV Frota Naval dos EUA à região é considerado por Chávez não apenas uma coincidência com o lançamento da Unasul. Recorda-se que, quando Condolezza Rice perguntou ao ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, que lugar teriam os EUA na nova aliança continental, Jobim lhe respondeu de forma sumária e enfática: “Distância”. Hugo Chávez advertiu que essa nova incursão da IV Frota do EUA é particularmente uma ameaça para a Venezuela e para o Brasil, ainda mais porque se dá no momento em que o nosso país encontra reservas de petróleo que o tornam um novo candidato a ingressar na Opep – segundo Chávez recordou que tinha proposto a Lula, assim que as primeiras reservas de Santos tinha sido anunciadas – e em que os EUA se encontram particularmente isolados na região.

Recordei que a luta antineoliberal já tem uma história no continente, desde o grito de resistência de Chiapas, em 1994, passando pela sua eleição em 1998, pelo lançamento dos Fóruns Sociais Mundiais, em 2001, pela cadeia de eleição de presidentes eleitos pelo voto de rejeição ao neoliberalismo, mas que agora se encontra, desde o ano passado, em particular com as arremetidas das oposições aos governos de Cristina Kirchner, de Evo Morales, do seu próprio governo, numa contra-ofensiva, em que os enfrentamentos se fazem mais claros, depois que foram tomados de surpresa, em particular pelas políticas sociais e pelos processos de integração regional. Hugo Chávez disse que, como no filme “O império contra-ataca”, que o império não iria ficar de braços cruzados quando vê que o controle do continente se lhe escapar das mãos. Que desde os ataques da direita ao governo Lula, passando pelos realizados contra o seu governo, incluindo a tentativa de golpe, como os ataques mais recentes aos governos da Argentina e da Bolívia, pertencem ao mesmo projeto imperial e devem ser considerados assim e combatidos de forma unida pelas forças populares latino-americanas.

Para isso temos que saber não apenas reafirmar as forças do povo, as forças dos pobres, que são os que fundamentalmente apóiam aos governos progressistas da região, mas encarar o desafio de conquistar a outros setores sociais, especialmente das classes médias, incluindo a setores como os militares. Recordou que no dia anterior à sua viagem a Brasília, se havia reunido, no Palácio de Miraflores com o presidente boliviano, Evo Morales, que retornava de uma viagem a Cuba, e com militares dos dois países.

Sobre a suposta disputa entre ele e Lula pela liderança no continente, Hugo Chávez fez questão de reafirmar a importância estratégica da firme aliança entre o Brasil e a Venezuela, de como seus vínculos com Lula são irreversíveis, não apenas políticos, mas de confiança absoluta entre os dois. Reiterou que as reuniões entre os dois a cada três meses tem sido um instrumento fundamental para avançar nos acordos comuns e fortalecer os vínculos entre o Brasil e a Venezuela.

Quando lhe perguntaram o que poderia mudar para a América Latina com a eleição do novo presidente dos EUA, Hugo Chávez disse que, dada a calamidade do governo Bush, que vai sair sozinho, pela porta dos fundos da Casa Branca, qualquer outro será melhor, mesmo McCain.

Diante de uma pergunta de Fernando Morais sobre as conseqüências da elevação acentuada do preço do petróleo, Hugo Chávez disse que quando assumiu a presidência o preço estava praticamente do preço de custo. O fortalecimento da Opep, para o qual seu governo contribuiu, permitiu retomar um preço compatível, com uma margem de oscilação, que subiria gradualmente. Mas foram os EUA, com a invasão do Iraque e as ameaças ao Irã, os responsáveis por essa alta tão grande do petróleo. Disse também que ele levou à Opep uma proposta de que se garantisse o abastecimento de petróleo para os 50 países mais pobres do mundo, como já faz a Venezuela para os países do Caribe, através da Petrocaribe.

No final eu recordei que há 3 anos e meio, no último Fórum Social Mundial realizado no Brasil, em Porto Alegre, ele tinha, no seu discurso no Gigantinho, mencionado pela primeira vez o socialismo como objetivo histórico. Quando tivermos o próximo FSM, em janeiro de 2009, de novo no Brasil, mas em Belém do Pará, no coração da Amazônica, qual a mensagem que ele pretende trazer. Hugo Chávez recordou aquele momento, quando apenas o primeiro dos novos governos latino-americanos começava – o de Lula -, como as coisas mudaram desde então. E disse que, depois que Fukuyama escreveu novo livro, dizendo que a história não tinha terminado, que está de volta, sugeriu: “Que tal: O Socialismo está de volta”.

 

 

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