Jun 26 2008
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EconomíaPolítica

Por mais etanol, Lula libera exploração dos cortadores

Tatiana Merlino *

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais uma vez, minimizou as precárias condições de trabalho dos cortadores de cana para defender os agrocombustíveis.No dia 19 de maio, o trabalhador rural Mariano Baader, de 53 anos, morreu em um canavial da Usina Alvorada, em Santo Anastácio (SP). O óbito, que pode ter ocorrido em decorrência do excesso de trabalho, está sendo investigado pelo Ministério Público do Trabalho.

Assim, o caso pode engrossar as estatísticas de trabalhadores do setor que faleceram em decorrência do excesso de esforço físico. De acordo com dados da Pastoral do Migrante, entre 2004 e 2007, pelo menos 21 cortadores de cana morreram em São Paulo por esse motivo. O último registro de morte por excesso de esforço físico foi o de Edilson de Andrade, de 28 anos, residente na região de Ribeirão Preto (SP), em setembro de 2007.
 
Defesa do etanol
 
Porém, a situação precária a que os cortadores de cana são submetidos parece ser ignorada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Recentemente, ele comparou o corte da cana ao trabalho de um balconista, “que fica atendendo a gente atrás do balcãozinho das seis da manhã à meia-noite”.
 
Dias antes do início da cúpula das Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) sobre segurança alimentar, que aconteceu entre os dias 2 e 5, em Roma (Itália), Lula também comparou o corte da cana com a indústria européia da mineração do começo da era industrial: “Não é mais duro do que o trabalho em uma mina de carvão, que foi a base do desenvolvimento da Europa.
 
Pegue um facãozinho e passe um dia cortando cana e desça numa mina a noventa metros de profundidade para explodir dinamite, para você ver o que é melhor”. O etanol tem sido um dos expoentes da política externa do governo Lula, que tem defendido em foros internacionais a ampliação do uso de agrocombustível feito de cana como uma das formas de amenizar os efeitos do aquecimento global.
 
Memória fraca
 
De acordo com a professora Maria Aparecida de Moraes Silva, do departamento de sociologia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) de Araraquara, a fala do presidente é “mais uma das infelizes frases pronunciadas por essa pessoa, que deveria ter mais respeito pelos cortadores de cana”.
 
Para ela, a afirmação é “insustentável”. “Digo isso com pesar, porque ele, que nasceu numa região canavieira – a zona da mata de Pernambuco – deve ter perdido a memória e não se lembra mais da situação em que viviam os trabalhadores da cana na região onde nasceu”, afirma.
 
Segundo a professora, a exploração da força de trabalho dos cortadores vem aumentando conforme se verifica a expansão da área canavieira para a produção de etanol. “Junto com a expansão da cana, aumenta-se a média de produtividade exigida aos trabalhadores, que são obrigados a ir além dos seus limites físicos”. Maria Aparecida explica que, enquanto na década de 1980 os cortadores eram obrigados a cortar por dia uma média de 5 a 8 toneladas de cana, na década de 1990, aumentou para 8 a 10, e hoje está entre 11 e 12.
 
Mortes por desgaste
 
De acordo com estudo realizado – durante dois anos com um grupo de trabalhadores no corte de cana da região de Piracicaba (SP) –, pelos pesquisadores Rodolfo Vilela, do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerest), e Erivelton Fontana de Laat, da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), o setor canavieiro tem alto índice de acidentes e até mortes por desgaste no trabalho do corte manual da cana.
 
A pequisa aponta que, em 10 minutos, o trabalhador derruba 400 quilos de cana, desfere 131 golpes de podão, faz 138 flexões de coluna, num ciclo médio de 5,6 segundos cada ação. O trabalho é realizado em temperaturas acima de 27ºC e com muita fuligem no ar. Ao final do dia, o cortador terá ingerido uma média de 7,8 litros de água e desferido 3.792 golpes.
 
Trabalho escravo
 
Apesar do etanol ser o centro da agenda do presidente em suas viagens internacionais, o número de trabalhadores escravizados no setor sucroalcooleiro é alarmante. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 52% das pessoas libertadas de condição análoga à escravidão pelo Grupo Móvel do Ministério do Trabalho, foram de usinas desse setor: 3.131 do total de 5.974.
 
As condições de trabalho na indústria da cana também foram criticadas recentemente pela Anistia Internacional e pelo relator especial da ONU sobre o Direito ao Alimento, Olivier De Schutter. A Anistia destacou em relatório a libertação de trabalhadores que estavam em situações “análogas à escravidão” em plantações no Pará.
 
* Publicado en Brasil de Fato

 

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