May 4 2009
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OpiniónPolítica

A esquerda y a crise

José Luis Fiori*

A esquerda keynesiana interpreta de forma mais ou menos consensual, a nova crise econômica mundial que começou no mercado imobiliário americano, e se alastrou pelas veias abertas da globalização financeira. Seguindo o argumento clássico de Hyman Minsky (1), sobre a tendência endógena das economias monetárias à “instabilidade financeira”, às bolhas especulativas e à períodos de desorganização e caos provocados pela expansão desregulada do crédito e do endividamento, quando se faz inevitável a intervenção publica e o redesenho das instituições financeiras  (2), sem que isto ameace a sobrevivência do próprio capitalismo.
Por isto, apesar de suas divergências a respeito de valores, procedimentos e velocidades, todos os keynesianos acreditam na eficácia, e propõem, neste momento, uma intervenção massiva do estado, para salvar o sistema financeiro e reativar o crédito, a produção e a demanda efetiva das principais economias capitalistas do mundo (3).
No caso da esquerda marxista, entretanto, não existe uma interpretação consensual da crise, nem existe acordo sobre os caminhos do futuro. Alguns seguem uma linha próxima da escola keynesiana, e privilegiam a financierização capitalista como causa da crise atual, enquanto outros seguem a linha clássica da teoria da “sobre-produção”, do “sub-consumo” (4), e da “tendência ao declínio da taxa de lucros” (5).
E ainda existe uma esquerda pós-moderna que interpreta a crise atual, como resultado combinado de tudo isto e mais uma série de determinações ecológicas, demográficas, alimentares e energéticas. Do ponto de vista propositivo, alguns marxistas acreditam na eficácia de uma solução “keynesiana” radicalizada (6), outros acham que chegou a hora do socialismo (7), e muitos consideram que acabou o capitalismo e a modernidade e só cabe lutar por uma nova forma de globalização solidária, onde as relações sociais sejam desmercantilizadas, e o produto social seja devolvido aos seus produtores diretos (8).  
Numa linha diferente, se colocam os autores neo-marxistas que associam as crises econômicas capitalistas, com o que chamam de ciclos e crises hegemônicas mundiais, que envolvem – além da economia – as relações globais de poder (9)
Estas teorias lêem a história do sistema mundial como uma sucessão de ciclos hegemônicos, uma espécie de ciclos biológicos dos estados e das economias nacionais que nascem, crescem, dominam o mundo e depois decaem e são substituídos por um novo estado e uma nova economia nacional que percorreria o mesmo ciclo anterior até chegar à sua própria hora da decadência. Neste momento, a maioria destes autores consideram que a crise econômica atual é uma parte decisiva da “crise da hegemonia” dos EUA, que deverão ser substituídos por uma novo centro de poder e acumulação mundial de capital, que provavelmente está situado na China.
 Do nosso ponto de vista, entretanto, a melhor maneira de pensar o “ sistema inter-estatal capitalista”, que se formou a partir da expansão européia do século XVI, não é através de uma metáfora biológica, e sim cosmológica, olhando para  o sistema como se ele fosse um “universo em expansão” contínua. Com um núcleo central formado pelos estados e economias nacionais que lutam pelo “poder global”, que são inseparáveis, complementares e competitivos e que estão em permanente preparação para a guerra,  uma guerra futura e eventual, que talvez nunca ocorra, e que não é necessário que venha a ocorrer (10).
Por isto, os estados e economias que compõem o sistema inter-estatal capitalista estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E as potencias que uma vez ocupam a posição de liderança, não desaparecem, nem são derrotadas por seu “sucessor”. Elas permanecem e tendem a se fundir com as forças ascendentes, criando blocos político-econômicos cada vez mais poderosos como aconteceu, por exemplo, no caso da “sucessão” da Holanda pela Grã Bretanha, e desta, pelos Estados Unidos, que significou de fato um alargamento sucessivo das fronteiras do poder anglo-saxônico.
Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta d forma exclusiva, no poder político e econômico norte-americano. Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos que serão comprados, pelos governos e investidores de todo mundo, como justifica o influente economista chinês, Yuan Gangming, ao garantir que “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”. (FSP, 24/11). 
Por isto, do meu ponto de vista, apesar da violência desta crise financeira, e dos seus efeitos em cadeia sobre a economia mundial, tampouco haverá uma “sucessão chinesa” na liderança política e militar do sistema mundial. Pelo contrário, do ponto de vista estritamente econômico, o mais provável é que ocorra um aprofundamento da fusão financeira em curso desde a década de 90, entre a China e os Estados Unidos”,  e esta integração será decisiva para a superação futura da crise econômica.
crise atual começou na forma de um tufão, mas deverá se prolongar na forma de uma “epidemia darwinista”, que irá liquidando os mais fracos, por níveis sucessivos, nacionais e internacionais, e aprofundará a corrida imperialista que começou nos anos 90. Na hora da volta do sol poucos estarão na praia, mas com certeza os EUA ainda estarão na frente deste grupo seleto. E quase todos os países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando a ordem internacional estabelecida, serão “recolocados no seu lugar”.
Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial, e é provável que algumas destas rebeliões voltem a se colocar objetivos socialistas. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de “modo de produção” em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma “superação hegeliana”, do sistema inter-estatal capitalista.
1 Minsky, P.H.(1975) The Modeling of Financial Instability: An introduction”, 1974, Modelling and Simulation. John Maynard Keynes, 1975, e “The Financial Instability Hypothesis: A restatement”, 1978, Thames Papers on Political Economy.
2 Wade, R. (2008) , “A new global financial architeture”, in New Left, n53, set/out
3 Ferrari, F. e Paula, L.F. (2008), Dossiê da Crise, Associação Keynesiana Brasileira, UFRGS
4 Oliveira, F. (2009), “Vargas redefiniu o país na crise de 30”, in www. cartamaior.com.br, 6/01/2009
5 Brenner, R. (2008)”O princípio de uma crise devastadora”, in , in Against the Current, fev 2008
6 Tavares, M.C. (2008), “Entupiu o sistema circulatório do sistema do capitalismo”, ww.cartamaior.com.br13/11/2008 e Belluzzo,L.G. (2008) “Cortar gasto publico?”, www.cartamaior.com.br. 13/11/2008
7 Amin, S. (2008). “There is no alternative to socialism”, in Indian’s National Magazine, vol 25, issue 26, de 20/12/2008 e Meszaros, I.(2009) “A maior crise na história humana”, in www.cartamaior.com.br, 07/02/2009
8 Wallerstein, I. (2008) “Depressão, uma visão de longa duração”, in www.cartamaior.com.br, 13/11/2008
9Arrighi, G. (2008) “A hegemonia em cheque”, in www.cartamaior.com.br, 19/06/2008
10 Este argumento está desenvolvido em J.L.Fiori “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações” , Editora Boitempo, São Paulo, 2007, e no artigo “O sistema inter-estatal capitalista, no início do Século XXI”, in J.L.Fiori, C.Medeiros e F.Serrano, “O Mito do Colapso do Poder Americano”, Editora Record, Rio de Janeiro 2008.
11 Serrano, F. (2008) “A economia Americana, o padrão “dólar-flexível” e a expansão mundial nos anos 2000”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO DO PODER AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro,

*Profesor de economía y ciencia política en la Universidad pública de Río de Janeiro

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