May 16 2007
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Sociedad

BENEDICTO XVI Y LA GUERRA EN LA IGLESIA

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Objetivamente ¬ęobsequioso¬Ľ n√£o possui nada de obsequioso.

O mesmo ocorreu com o te√≥logo da liberta√ß√£o Jon Sobrino, de El Salvador, condenado em fevereiro deste ano. Recebeu apenas uma ¬ęnotifica√ß√£o¬Ľ. Esta inocente palavra, ¬ęnotificatio¬Ľ, esconde viol√™ncia porque ele n√£o pode mais falar, nem dar aulas, conceder entrevistas e acompanhar qualquer trabalho pastoral. O vitimado por uma condena√ß√£o √© ¬ęmoralmente¬Ľ morto, pois vem colocado sob suspeita geral, tolhido, isolado e psicologicamente submetido a graves transtornos, o que levou a alguns a terem neuroses e a um deles, famoso, perseguido por id√©ias de suic√≠dio.

N√≥s fomos, no m√≠nimo, ca√ßados e anulados, pois um te√≥logo possui apenas como instrumento de trabalho a palavra escrita e falada. E estas lhe foram seq√ľestradas, coisa que conhecemos das ditaduras militares.

O que foi escrito acima parece irrelevante, pois √© algo pessoal, mas n√£o deixa de ser ilustrativo da guerra religiosa vigente dentro da Igreja. Nela o ent√£o cardeal Ratzinger era general. Hoje como papa √© o comandante em chefe. Qual √© este embate? √Č importante referi-lo para entender palavras e advert√™ncias do papa e a partir de que modelo de teologia e de Igreja constr√≥i o seu discurso.

Dito de uma forma simplificadora, mas real: h√° na igreja duas op√ß√Ķes claramente opostas, o que n√£o impede que, na pr√°tica, possam se entrela√ßar. Face ao mundo, √† cultura e √† sociedade h√° a atitude de confronto ou de di√°logo.

A partir da Reforma no século 16 predominou na Igreja Católica romana a atitude de confronto: primeiro com as Igrejas protestantes (evangélicas) e depois com a modernidade.

Face √† Reforma houve excomunh√Ķes, e face √† modernidade, an√°temas e condena√ß√Ķes de coisas que nos parecem at√© ris√≠veis: contra a ci√™ncia, a democracia, os direitos humanos, a industrializa√ß√£o. A Igreja se havia transformado numa fortaleza contra as vagas de reformismo, secularismo, modernismo e relativismo. Miss√£o da igreja, segundo esse modelo do confronto, √© testemunhar as verdades eternas, anunciar a Cristo como o √ļnico Redentor da humanidade e a Igreja sua √ļnica e exclusiva mediadora, fora da qual n√£o h√° salva√ß√£o.

Em seu documento de 2000, Dominus Jesus, o cardeal Ratzinger reafirma tal visão com a máxima clareza e laivos de fundamentalismo. Tudo é centralizado no Cristo. Esta atitude belicosa predominou até os anos 60 do século passado quando foi eleito um papa ancião, quase desconhecido, mas cheio de coração e bom senso, João 23. Seu propósito era passar do anátema ao diálogo. Quis escancarar as portas e janelas da Igreja para arejá-la. Considerava blasfêmia contra o Espírito Santo imaginar que os modernos só pensam erros e praticam o mal.

Há bondade no mundo, como há maldade na Igreja. Importa é dialogar, intercambiar e aprender um do outro. A Igreja que evangeliza deve ela mesma ser evangelizada por tudo aquilo que de bom, honesto, verdadeiro e sagrado puder ser identificado na história humana.

Deus mesmo chega sempre antes do missionário, pois o Espírito Criador sopra onde quiser e está sempre presente nas buscas humanas suscitando bondade, justiça, compaixão e amor em todos. A figura do Espírito ganha centralidade.

Fruto da op√ß√£o pelo di√°logo foi o Conc√≠lio Vaticano 2¬ļ (1962-1965), que representou um acerto de contas com a Reforma pelo ecumenismo e com a modernidade pelo m√ļtuo reconhecimento e pela colabora√ß√£o em vista de algo maior que a pr√≥pria Igreja, uma humanidade mais dignificada e uma Terra mais cuidada. Este ¬ęaggiornamento¬Ľ trouxe grande vitalidade em toda a Igreja, especialmente na Am√©rica Latina, que criou espa√ßo para aquilo que se chamou de Igreja da base ou da liberta√ß√£o e da Teologia da Liberta√ß√£o. Mas acirrou tamb√©m as frentes.

Grupos conservadores, especialmente incrustados na burocracia do Vaticano, conseguiram se articular e organizaram um movimento de restauração, de volta à grande tradição.

Este grupo foi enormemente refor√ßado sob Jo√£o Paulo 2¬ļ, que vinha da resist√™ncia polonesa ao marxismo. Chamou como bra√ßo direito e principal conselheiro, seu amigo, o te√≥logo Joseph Ratzinger, elevando-o diretamente ao cardinalato e fazendo-o presidente da Congrega√ß√£o para a Doutrina da F√©, a ex-Inquisi√ß√£o.
A√≠ se processou de forma sistem√°tica, vinda de cima, uma verdadeira Contra-Reforma Cat√≥lica. O pr√≥prio cardeal Ratzinger no seu conhecido Rapporto sulla fede, de 1985, um verdadeiro balan√ßo da f√©, dizia claramente: ¬ęA restaura√ß√£o que propiciamos busca um novo equil√≠brio depois dos exageros e de uma abertura indiscriminada ao mundo¬Ľ.

Ele elaborou teologicamente a opção pelo confronto a partir de sua formação de base, o agostinismo, sobre o qual fez duas teses minuciosamente trabalhadas. Notoriamente Santo Agostinho opera um dualismo na visão do mundo e da Igreja. Por um lado está a cidade de Deus e por outro a cidade dos homens, por uma parte a natureza decaída e por outra, a graça sobrenatural.

O Adão decaído não pode redimir-se por si mesmo, seja pelo trabalho religioso e ético (heresia do pelagianismo) seja por seu empenho social e cultural.

Precisa do Redentor. Ele se continua e se faz presente pela Igreja, sem a qual nada ganha altura sobrenatural e se salva.

Em raz√£o desta chave de leitura, o papa Bento 16 se confronta com a modernidade, vendo nela a arrog√Ęncia do homem buscando sua emancipa√ß√£o por pr√≥prias for√ßas. Por mais valores que ela possa apresentar, n√£o s√£o suficientes, pois n√£o alcan√ßam o n√≠vel sobrenatural, √ļnico car√°ter realmente emancipador. Nela v√™ mais que tudo secularismo, materialismo e relativismo. Essa √© tamb√©m sua dificuldade com a Teologia da Liberta√ß√£o. A liberta√ß√£o social, econ√īmica e pol√≠tica que pretendemos, segundo ele, n√£o √© verdadeira liberta√ß√£o, porque n√£o passa pela media√ß√£o do sobrenatural.

Para concluir, se o atual papa tivesse assumido uma teologia do Espírito, coisa ausente em sua produção teológica, teria uma leitura menos pessimista da modernidade.

No atual momento se d√° o forte embate entre essas duas op√ß√Ķes. A Igreja latino-americana pende mais pela op√ß√£o do di√°logo. Esta √© mais adequada √† cultura brasileira que n√£o √© fundamentalista nem dogm√°tica, mas profundamente relacional e dialogal com todas as correntes espirituais.

Somos naturalmente sincréticos na convicção de que em todos os caminhos espirituais há bondade para além dos desvios e que, definitivamente, tudo acaba em Deus.

Não parece ser esta a opção de Bento 16: seus discursos enfatizam a construção da Igreja em sua forte identidade para que seu testemunho seja vigoroso e possa levar valores perenes a um mundo carente deles, como se viu claramente em seu discurso aos bispos brasileiros na catedral de São Paulo.

Essa Igreja é necessariamente de poucos, coisa reafirmada pelo teólogo Ratzinger em muitas de suas obras. Mas esses poucos devem ser santos, zelosos e comprometido com a missão de orientar e conduzir os muitos, sem se deixar contaminar por eles e pelo mundo.

Ocorre que esses poucos nem sempre s√£o bons. Haja vista os padres ped√≥filos. Por isso, a Igreja precisa renunciar a certa arrog√Ęncia, ser mais humilde e confiar que o Esp√≠rito e o Cristo c√≥smico dirijam seus passos e os da humanidade por caminhos com sentido e vida.

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foto
* Teólogo da libertação e escritor.
Publicado en Folha de S√£o Paulo.
www.folha.uol.com.br.

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