May 25 2009
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Cultura

Cogumelos de outono

Carlos Grassioli*

“Eu não entendo. Como é que uma pessoa como você, que lê tanto, pode cometer determinados erros de ortografia? Você escreveu O dom de iludir com ene”, observou um amigo que gosta muito de mim e que iria gostar mais ainda se eu me expusesse menos e fosse mais, digamos, preparado.
“Talvez, porque e justamente, me falte o dom de iludir…ou de escrever?”,respondi.

Como já escrevi em outra ocasião, sou “réu” do primário e isso já não incomoda mais, como também não incomoda, embora às vezes atrapalhe, um certo despreparo cultural que me impede de exercer com garbo e destreza, a arte da escrita ou outra arte qualquer.

Não conheço, absolutamente, o ensino acadêmico, menos ainda o universo acadêmico, mas como tenho por hábito e vocação tentar ver ou focar o lado positivo das coisas, acabo encontrando um tipo de vantagem, mesmo no despreparo.

No caso da escrita, por exemplo, a vantagem está em dificilmente vir a ser catalogado como cronista, romancista, novelista, etc., considerando que todo e qualquer tipo de “carimbo” acaba sendo um limitador, tanto no campo da ação como da criação.

A não ser o prazer e o gosto pela escrita, tenho tudo o que uma pessoa precisa para não correr o risco de vir a ser “responsabilizado” de escritor e por isso, desde que eu não seja medíocre, antiético e antiestético, sinto-me plenamente livre, inclusive do método, para arriscar como autodidata. E no máximo, vir a ser catalogado como um “ensaísta-amador-crônico”.

Eu não escrevo, ponto!
Eu ensaio, pronto! .

Li, há poucos dias, sobre um pensador francês, Maurice Blanchot, que escreveu “O livro por vir” onde ele estuda o caso curioso de um escritor chamado Joubert que nunca escreveu um livro, e se ele poderia ser chamado de escritor.
Joubert , embora nunca tenha escrito um livro, escreveu, “Carnês” cujo subtítulo era “Diário íntimo de Joubert” que, por não refletir necessariamente, seus dias, seu cotidiano, remetia a algo diverso.

Entre outras coisas, consta desse curioso diário, as seguintes perguntas:

“Mas de fato, que arte é a minha? Que fim ela se propõe? O que ela produz? O que faz com que ela nasça e exista? O que pretendo e quero fazer ao exercê-la? Será escrever e assegurar-me de ser lido? Única ambição de tanta gente! Será isso o que desejo? …É o que devo examinar atentamente, e até que eu o saiba”

Para mim, são perguntas chaves e de grande valia, das quais me sirvo à vontade, por entender que são universais e de utilidade pública.

A qualquer pessoa que pretenda transitar no plano da criação, literária ou não, por mais amadora que seja , cabem as perguntas formuladas pelo escritor que nunca escreveu um livro. E tenho certeza que se um exercício de auto-questionamento implacável e fatal como esse, fosse regra e levada á sério, o mundo todo estaria protegido de , pelo menos, grande parte do lixo ou poluição “contemporânea” a que somos submetidos, diariamente, sobretudo no plano visual (incluindo a escrita) e sonoro.

Eu não só acho absolutamente pertinentes essas perguntas e incorporo integralmente ao exercício da escrita e ao meu processo criativo, como também, por levar à risca tais questões, torno-me, em mais um aspecto, um forte candidato a jamais levar a cabo o projeto de um livro. E mesmo que eu venha um dia, escrever um, com certeza será sempre, e no máximo, um arremedo de todas as maravilhas que eu já li.

Através de uma absoluta ausência de método, aprendi também a ler e descobrir a verdadeira e boa literatura, vibrar com ela. O que me permite, hoje, acreditar que sou um bom e criterioso leitor e pra mim isso não é só meio caminho andado. É todo um caminho!

Bem, e os cogumelos de outono, o que é que tem a ver com isso? Perguntar-me-ia meu amigo que gosta muito de mim e que gostaria muito mais se eu incorresse menos no erro ortográfico.

Absolutamente nada! Responderia eu.

A não ser o fato de escrever esse texto no inicio de maio e ter colhido uma generosa cesta de cogumelos de outono…comestíveis, é claro. Mas nada contra os não comestíveis ou alucinógenos, até porque entendo perfeitamente a grande dificuldade de, às vezes, encarar de cara limpa o mundo doido em que vivemos.

Acontece que na minha idade, ficar mais doidão do que eu já estou, seria caso de internação o que, evidentemente, não está previsto no meu plano de saúde, ainda mais se tratando de uma overdose por cogumelos. E, aguardando um atendimento pelo SUS, eu estaria correndo o risco de, literalmente, morrer doido.

Mas diz uma amiga minha, estudiosa e conhecedora a fundo do calendário maia, que esse mundo doido vai acabar em dois mil e doze e segundo ela, não ficará pedra sobre pedra. A única vantagem que eu poderia ver nisso e por uma única e simples razão, absolutamente egoísta, é que eu vou mas vai todo mundo comigo.

Eu não sou daquele tipo de pessoa que prefere ser a ultima a sair de uma festa, para não correr o risco de oportunizar aos que ficam, falarem mal dela, mas se o fim do mundo será, efetivamente , em de 2012, sim e mais do que nunca quero ser o ultimo a sair, pra ter certeza de que realmente a “festa” acabou.

Porque se restar uma ínfima possibilidade de continuar vivo, mesmo sozinho, se bem me conheço, vou me agarrar com unhas e dentes a ela.
E ser for num mês de maio, surgirei das cinzas…
 

Nem que seja como um belo cogumelo de outono, azul e com bolinhas brancas.

E aí, a questão existencial será bem mais simples: to be or not to be…
Um fungo?

* Escritor.
El texto O dom de iludir puede encontrarse aquí.
 

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