Mar 19 2005
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Cultura

Hélio Rôla: especulación y prostiturismo

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Nos idos de 80, a Praia de Iracema era o Estoril, um que outro bar bem fuleiro, aquelas pedras de nós todos (anteparos do sonho) e a ponte, que é dos Ingleses mas todos chamamos Metálica.

fotoNuma simpática e alegre casa, aberta aos amigos feito a vela de uma jangada na linha do mar, o artista Hélio Rôla misturava tintas fortes, básicos amarelos, vermelhos, azuis, para dizer de uma tragédia que se anunciava: a Praia dos Amores, cantada nos versos de Luís Assunção, logo mais iria se transformar nos horrores -não clandestinos, mas explícitos, da especulação imobiliária e do prostiturismo-.

E nem mesmo um equipamento portentoso, belo e democrático, feito o Dragão, impediu que se cumprisse este destino. É disto que trata a individual de Hélio Rôla, em cartaz a partir de hoje no Centro Cultural Dragão do Mar: Cidades.

Desde aquele tempo, Hélio Rôla também cultiva a arte postal, em deliciosos cartões, líricos e lúcidos, enviados pelo correio. Pois ele continua presenteando maravilhas, agora através da Internet, pra coisa de 500 afortunados no Brasil e noutras partes do mundo. E quem recebe suas mensagens -desenho e poesia- lê, ao final, a frase emblemática, que deu mote ao título desta matéria, um trocadilho feliz: ”Fortaleza é nossa debilidade”.

Cidades é, ao mesmo tempo, uma denúncia, um exorcismo e uma inconteste prova de amor à cidade fraturada em que o artista nasceu e onde teima em viver.

A exposição Cidades, promovida pela Secretaria de Cultura e Centro Dragão do Mar, fica em cartaz durante um mês, no corredor que dá acesso ao Museu de Arte Contemporânea. Uma sala em frente a outra. Feito imagens num espelho: a mesma, ao contrário. Pelo avesso. Comecemos pela sala de paredes escuras. foto”Tem este pueblo luminoso, uma luz negra sobre ele. Por trás, nesta parede, esta vilazinha: o pueblo, de novo. Aqui vai ter uma mistura de gravuras, colagens e pinturas, na linha expressionista e construtivista”, explica o artista.

”Há 70 anos, a arte contemporânea vem se diluindo a partir de si mesma. Numa sala como esta, Hélio provoca com uma instalação que não obedece aos padrões da instalação, com o uso de técnicas diferentes, o óleo, a gravura, a colagem, a animação”, fala o curador da exposição, o poeta e crítico de arte Floriano Martins.

Dele, a idéia do cavalete, com a linogravura do diablo, feita no México, em outubro passado. Para afirmar o caráter de ”obra em progresso” do autor, explica Floriano. A instalação, ”um ajuntamento sobrecarregado, uma favela. E o diablo do pueblo”, diz Hélio, que apresentou suas vilazinhas coloridas e diabólicas na Feria del Libro del Zócalo. ”A diferença do pueblo do México é que o daqui foi repintado com tinta luminosa”, explica ele.

E a sombra do morcego-móbile se projetando sobre tudo, a luz negra do teto, a intermitência de duas projeções contínuas. ”Aí aparece a arte digital. Quem não faz arte digital hoje, tá por fora”, diz o serelepe Hélio Rôla.

Hélio chama esta de ”sala dos horrores”. Aqui, entre as paredes lúgubres, pontua Floriano, fica o núcleo do trabalho anterior, Iracema by night, apresentado em 1996 no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Mas ainda falta falar do manequim, torso coberto de figurinhas humanas esticadas ao máximo, ”como provocação non sense, mas Floriano é que é o teórico, diga lá”, instiga Hélio.

Floriano: ”O manequim é nossa homenagem ao Café Voltaire”, e paira agora um ar de anos 10, Zurique, o movimento dada, o surrealismo, tão caros a ambos. Mais Floriano: ”Cidades é arte contemporânea, mas uma visão contundente do contemporâneo, composta de uma multiplicidade de técnicas. É pulsante, viva”.

A sala branca, imensos óleos sobre tela. Veja ”Cult cult cult”, de 94. ”Pintava isso no clima da Praia de Iracema, entre o barulho dos carros, do som, loucura total, a cultura do mau gosto e da violência”, diz Hélio Rôla. Nos óleos, o desmantelo local e o que inquietava o mundo, ”Maníaco do Parque”, ”O filho da Madonna” ou a ”Vaca louca”, pintada entre 94 e 97. O bicho dissecado, sangrado, partido, está entre humildes flores com corolas de pedacinhos de espelho. Veja-se. ”Tropicaliente”, a face da loucura. ”É horrível, mas me permita”, diz Hélio. São, ambas, salas de memória, provocam ”uma falsa nostalgia. Na verdade, é a mesma cidade”, fala Floriano.

”A cidade de ontem, na sala branca. Na preta, a cidade neón. Na sala de ontem, o artista, por antevisão, revela a barra pesada, como se dissesse, olha no que isto vai dar. Na outra sala, o presente, é o caos instalado, o caldeirão infernal configurado. Não tem mais como voltar, a não ser como saudosismo ou arrependimento”, fecha o pensamento o curador.

foto
Hélio Rôla abre outro: ”Esta exposição me relembra o que se pode fazer como artista, que não estou preso a galerias, a mercado. Vivo pintando mas não vivo da pintura”. Hélio Rôla é médico, professor da Faculdade de Medicina da UFC. ”Os cientistas, quando querem me desvalorizar, me chamam de artista. E os artistas, por sua vez, me chamam de cientista”, diz Hélio. E gargalha.

”Hélio Rola está tão repleto de humanidade que não há como não compartilhá-la. É disto que somos feitos, afinal: humanidade. Não se trata do artista ou de sua obra, mas sim de uma semelhança compartilhada, que busca um diálogo aberto com quem se aproxime”, resume Floriano Martins. Dizer o quê? Vá ver!

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* De Redação.

Nota

Las imágenes utilizadas del artista no corresponden a los trabajos expuestos.

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