Oct 12 2006
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Sociedad

Mumia Abu-Jamal: – EL HOMBRE EN EL CORREDOR DE LA MUERTE

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Na cela de seguran√ßa m√°xima do americano M√ļmia Abu-Jamal, de 52 anos, a luz nunca se apaga. C√Ęmeras monitoram todos os seus passos. Preso na State Correctional Institution Greene, no estado da Pensilv√Ęnia, ele aguarda a execu√ß√£o desde 1982. Foi condenado √† morte pelo assassinato do policial Daniel Faulkner na Filad√©lfia, em 9 de dezembro do ano anterior. Mesmo isolado, M√ļmia ‚Äďou Wesley Cook, seu nome antes de se converter ao islamismo‚Äď continua com a atitude militante que tinha no final dos anos 60, quando aderiu ao Partido dos Panteras Negras ‚Äďmovimento radical pelos direitos dos negros que, algumas vezes, entrou em conflitos sangrentos com policiais americanos‚Äď.

Naquela √©poca, come√ßou a trabalhar como jornalista – por criticar a situa√ß√£o dos pobres e das minorias nos Estados Unidos, ficou conhecido como ¬ęa voz dos que n√£o t√™m voz¬Ľ, ou ¬ęThe Voice of the Voiceless¬Ľ, t√≠tulo de uma m√ļsica que o Rage Against The Machine gravou para M√ļmia no √°lbum The Battle of Los Angeles , de 1999. Escute aqui um trecho:

Enquanto busca um novo julgamento, M√ļmia grava programas semanais de r√°dio e continua escrevendo. A autoriza√ß√£o para que ele receba a inje√ß√£o letal j√° foi dada duas vezes, mas a press√£o internacional e o trabalho de seu advogado conseguiram adiar a execu√ß√£o indefinidamente – sua defesa alega inoc√™ncia e diz que ele foi condenado por suas id√©ias pol√≠ticas.

Em 2003, a luta de M√ļmia rendeu-lhe o t√≠tulo de cidad√£o honor√°rio de Paris ‚Äďantes dele, o √ļltimo a receber a rara homenagem tinha sido o pintor espanhol Pablo Picasso, em 1971‚Äď. A seguir, ele fala sobre os Panteras Negras, a condena√ß√£o e a vida no corredor da morte. As respostas foram enviadas para Hist√≥ria em duas cartas datilografadas, escritas dentro da cadeia.

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Como você entrou no Partido dos Panteras Negras?

Eu estava com uns 14 anos e nunca tinha visto nada igual. Os caras mostravam uma atitude desafiadora com o mundo e protetora na comunidade negra. Eles tinham um apelo enorme com os jovens. Quando me dei conta, eu estava me vestindo como eles, falando como eles, trabalhando com eles. Aos 15 anos, enfrentava o governo e todo o sistema opressor com minhas palavras. Lia muitos livros e escrevia para toda a comunidade sobre a violência da polícia local, o capitalismo americano, o racismo etc. Logo virei o responsável pela comunicação do Partido dos Panteras Negras na Filadélfia.

Produzia, escrevia, editava e cuidava da distribui√ß√£o do jornal do partido ao lado de outros jovens. A gente vendia cerca de 150 mil c√≥pias por semana nos guetos. Fizemos uma revolu√ß√£o. Viramos um grande inc√īmodo para a pol√≠cia.
Os Panteras Negras foram chamados de revolucion√°rios.

Vocês tinham a sensação de estar participando mesmo de uma revolução mundial?

A gente se identificava com toda luta antiimperialista e tentava trocar apoio e impress√Ķes, dentro das limita√ß√Ķes tecnol√≥gicas da √©poca. O partido tinha uma liga√ß√£o forte com Cuba. Alguns membros viajaram para o exterior e tamb√©m recebemos visitantes. Todos os l√≠deres comunistas do mundo eram grandes influ√™ncias. Alguns livros, como o Livro Vermelho de Mao Ts√©-Tung, viraram refer√™ncia. N√£o tenho d√ļvida de que o partido me deu uma educa√ß√£o internacional; Huey ‚ÄďHuey P. Newton, que fundou o partido ao lado de Bobby Seale na Calif√≥rnia em 1966‚Äď diria ¬ęintercomunit√°ria¬Ľ. N√£o trocaria aquela experi√™ncia por nada.

Na sua opini√£o, quais foram os erros do partido?

Nossos erros foram muitas vezes provocados pelos egos, pelas paix√Ķes, pela falta de compaix√£o entre os membros do partido. Eu realmente acho que a separa√ß√£o de Huey e Eldridge poderia ter sido evitada se, em vez de falarem um do outro, eles falassem um com o outro ‚ÄďEldridge Cleaver, fundador da sede internacional dos Panteras Negras, se desentendeu com Huey Newton em 1971. Cleaver queria continuar pregando a luta armada, enquanto os fundadores do grupo defendiam uma postura mais pac√≠fica‚Äď.

Essa separa√ß√£o foi seguida de outras separa√ß√Ķes que acabaram com a organiza√ß√£o ‚Äďal√©m das for√ßas externas que n√≥s, de v√°rias maneiras, permitimos que entrassem no partido‚Äď. Tamb√©m errei ao deixar o partido prematuramente, depois de ficar enojado com as lutas internas.

Se eu e alguns outros continuássemos unidos por mais alguns anos, a história do partido seria diferente. Os negros americanos teriam uma grande revolução alternativa para representar seus interesses. Mas é difícil saber o quanto resistiríamos.

No caso Malcolm X, por exemplo, o Estado teve um papel importante na briga entre ele e a Na√ß√£o do Isl√£ e no pr√≥prio assassinato dele. Li arquivos do FBI que foram abertos ao p√ļblico em que se pode concluir que o Estado jogou para isol√°-lo e dar um fim √† vida dele.

O que aconteceu em 9 de dezembro de 1981, data do assassinato do policial pelo qual você foi condenado?

Estava trabalhando de madrugada, no meu t√°xi, quando vi um policial agredindo meu irm√£o e decidi me aproximar ‚ÄďDanny Faulkner parou William Cook, que estava dirigindo um fusca na contram√£o com os far√≥is apagados √†s 3h50 da manh√£, numa √°rea de bares e boates‚Äď . N√£o tinha outra op√ß√£o. N√£o poderia seguir em frente depois de ver algu√©m batendo no meu irm√£o.

E então aconteceu uma série de injustiças que culminaram com a minha condenação.

(Segundo testemunhas, William foi agredido brutalmente e M√ļmia trocou tiros com Faulkner. Um outro homem estaria envolvido na briga, mas teria fugido do local antes da chegada dos policiais que prenderam M√ļmia e nunca foi achado. M√ļmia levou dois tiros e teve hemorragias no pulm√£o e no f√≠gado).

Como foi o julgamento?

N√£o pude fazer minha pr√≥pria defesa, fui expulso do tribunal e tive que aceitar um defensor p√ļblico que sequer me perguntou o que aconteceu naquela madrugada ‚Äďe tamb√©m n√£o falou com as testemunhas. O j√ļri era racista e me condenou. Depois meus direitos constitucionais foram violados porque eu nunca pude recorrer.

Qual a situação atual do seu caso?

Conseguimos adiar minha morte duas vezes, mas não conseguimos um novo julgamento ainda. No começo deste ano, o meu advogado obteve uma vitória que pode levar a um novo julgamento e a minha liberdade. O caso agora parece estar andando mais rapidamente.

Como é a vida de um condenado à morte?

H√° c√Ęmeras ligadas 24 horas por dia sobre a minha cabe√ßa e n√£o apenas porque eles temem que eu fuja. Elas est√£o ligadas para que os guardas monitorem tentativas de suic√≠dio. Certamente todos os presos que um dia entraram no corredor da morte j√° pensaram em suic√≠dio, por mais rid√≠culo que isso possa parecer. Tenho duas horas por dia fora da cela.

O corredor da morte, assim como a vida, √© como voc√™ quer que seja. √Č um lugar de isolamento extremo e sua sa√ļde mental depende muito de como voc√™ gasta seu tempo. Homens diferentes t√™m maneiras diferentes de lidar com a vida ‚Äďou, francamente, de falhar em lidar com a vida‚Äď. Eu tento me manter sempre muito ocupado.

Fiz faculdade de Psicologia e mestrado em Hist√≥ria aqui dentro. Leio livros de hist√≥ria, ci√™ncia pol√≠tica, atualidades… Escrevo, estudo, pinto. Alguns caras gastam dias travando argumentos amargos com outros caras no corredor da morte. Alguns se perdem praticando esporte ou fazendo cultos religiosos. A aliena√ß√£o √© um mal terr√≠vel.

Quando fico sabendo que um político quer acabar com pequenos luxos, como TV e aparelhos de musculação na prisão, acho bom. Se os presos vivessem sem TV, livros, jornais, cultos, exercícios, eles passariam mais tempo na companhia de si mesmos e teriam mais consciência da realidade.

Você acha que os Estados Unidos são um país melhor ou pior do que aquele que você conhecia há 25 anos?

O jeito americano de aplicar a pena de morte nada mais √© hoje do que uma forma moderna do linchamento nas √°rvores ‚Äďtipo muito comum de assassinato cometido no sul dos Estados Unidos contra os negros antes das reformas que lhes garantiram direitos civis, nos anos 60‚Äď . Mudou a tecnologia, mas ainda temos o mesmo esp√≠rito de mentiras sangrentas por baixo da m√°scara. √Č por isso que o corredor da morte √© t√£o negro e, cada vez mais, pardo.

Na sua opini√£o, os americanos ainda s√£o racistas?

Se eu disser que sim, é apenas a opinião de um cara. Mas estudiosos que têm olhado para a questão também têm chegado à mesma conclusão. A toxina da escravidão deixou marcas profundas na alma americana.

At√© o presidente Bush disse h√° pouco tempo (no dia 20 de julho, na Associa√ß√£o Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, nos Estados Unidos) que racismo e discrimina√ß√£o s√£o uma mancha na Am√©rica. √Č imposs√≠vel achar uma figura hist√≥rica que n√£o tenha explorado o trabalho de negros, a vida, a sa√ļde e a esperan√ßa de nossa gente para fazer um altar pr√≥prio de lucros. George Washington, Thomas Jefferson, James Madison, Patrick Henry, que talvez os brasileiros n√£o conhe√ßam, mas est√° em todos os livros escolares daqui (Henry foi um importante l√≠der da independ√™ncia americana) . Ele fez um agitado discurso revolucion√°rio: ¬ęMe d√™ liberdade ou me d√™ a morte!¬Ľ. Claro que isso n√£o se aplicava aos escravos dele.

Em todo o mundo, milhares de pessoas torcem para vê-lo livre da prisão. Até no Brasil, no fim dos anos 90, manifestantes fizeram cartazes a favor da sua liberdade. Onde você gostaria de viver ao deixar a prisão?

Penso muito sobre isso. Definitivamente n√£o vou ficar nos Estados Unidos. A Fran√ßa tem me dado muito apoio e √© claro que eu tamb√©m penso nos pa√≠ses da √Āfrica. Adoraria conhecer Gana, Nig√©ria, Qu√™nia… S√≥ para mencionar alguns. Quanto ao Brasil, quando eu penso no seu pa√≠s, as primeiras imagens que me v√™m √† cabe√ßa s√£o √≥bvias: as lindas mulheres, o Rio de Janeiro, o Carnaval etc. Mas o Brasil tamb√©m me faz pensar em outras coisas. √Č o pa√≠s que tem a maior comunidade negra fora da √Āfrica, que tinha Palmares e que tinha Zumbi. Eu penso nos orix√°s, no candombl√©, nas cria√ß√Ķes dos povos africanos. Deve ser um pa√≠s bonito.

Como o seu relacionamento com Wadiya, sua esposa, resiste ao corredor da morte?

Eu a amo como a amava 25 anos atr√°s. N√≥s n√£o estamos juntos porque temos que estar juntos, estamos juntos porque queremos. Um relacionamento sem nenhum contato f√≠sico √© dif√≠cil de entender e de explicar. Mas eu poderia dizer que continuamos totalmente conectados. √Č assim que eu sinto.

Depois de quase um quarto de século no corredor da morte, você ainda acredita que vai sair daí vivo?

Nunca deixei de acreditar na liberdade. Nem por um segundo.

Quais são suas lembranças mais fortes daquela época?

No Partido dos Panteras Negras, o sentimento mais forte era o de esperança. Eu me lembro mais da camaradagem, do companheirismo dentro do grupo do que os eventos. Todos trabalhavam duro para fazer algo positivo pela comunidade. Cada pessoa dava o máximo de si pelo partido e pelas outras pessoas em volta.

Aqueles foram longos e duros dias de trabalho. Eu aprendi a escrever da perspectiva das pessoas e n√£o da do sistema, como fazem muitos jornalistas. Eu aprendi a trabalhar em conjunto, com gente que tinha vis√Ķes e perspectivas diferentes das minhas. Aprendi a falar, a relatar, a enfatizar e a ouvir os outros, o que me ajudou muito no jornalismo e na vida.

Você ainda tem amigos que pertenceram aos Panteras Negras?

Sim, eu ainda tenho grandes amigos que fiz no partido. Depois de passar por tantas situa√ß√Ķes juntos, sob um estresse incr√≠vel, seria dif√≠cil n√£o virarmos amigos para a vida toda. Muitas irm√£s e irm√£os do partido me ajudaram a escrever We want Freedom: A life in the Black Panther Party (publicado em 2004, este foi o quinto livro de M√ļmia) .

Eu j√° conheci muitas, muitas pessoas mesmo que se apresentaram como companheiros do partido. Como eu cuidava dos arquivos de membros da Filad√©lfia e prestava muita aten√ß√£o neles, sei que n√£o era verdade. Ou pelo menos que n√£o era totalmente verdade. Acho que muitos negros sentiam orgulho do partido, mas medo de participar. E, se eles fossem sinceros, diriam apenas ¬ęeu gostaria de ter participado, eu realmente queria¬Ľ ou ¬ęeu fui um f√£ de voc√™s¬Ľ ou ¬ęeu usei um bottom do Partido dos Panteras Negras¬Ľ etc. Tudo bem, eu entendo.

Você se converteu ao islamismo nos primeiros anos na prisão, como fez a maioria dos presos que eram do movimento negro. Continua praticando a religião?

Eu me dediquei nos primeiros anos. Mas, por causa do isolamento, a religi√£o deixou de ter import√Ęncia. Quando eu penso nas pessoas lutando na Venezuela contra a repress√£o imperialista, estou praticando minha religi√£o. Quando escrevo alguma coisa em apoio ao esfor√ßo popular contra a opress√£o em qualquer lugar do mundo, estou praticando minha religi√£o. Quando escrevo uma carta que serve de inspira√ß√£o para um jovem, e esse jovem fala para outros o que se passa em sua cabe√ßa sobre os atos sem p√© nem cabe√ßa do sistema, estou praticando minha religi√£o.

John Africa (fundador da organiza√ß√£o negra MOVE, que surgiu em 1972 com uma filosofia naturalista, da qual M√ļmia faz parte) costumava dizer que muitas pessoas s√≥ pensam em suas religi√Ķes quando v√£o para a igreja aos domingos, fazem suas preces e tomam um copo de vinho. Quando elas voltam para o mundo l√° fora, de segunda a sexta-feira, trabalham em favor do sistema.

N√£o √© o que voc√™ faz aos s√°bados ou domingos que define sua religi√£o. √Č o que voc√™ faz de segunda a sexta-feira que conta. Infelizmente as pessoas realmente acreditam no sistema. Esta √© a religi√£o delas. O que voc√™ pensa no dia-a-dia, que drogas voc√™ toma, que trabalho voc√™ aceita, o dinheiro que voc√™ ganha, o sexo que voc√™ faz… Essas s√£o suas verdadeiras religi√Ķes.

Como √© a sua rela√ß√£o com seus filhos e netos? com que freq√ľ√™ncia voc√™s se v√™em?

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Meus filhos e netos n√£o me visitam tantas vezes quanto n√≥s gostar√≠amos, por causa da imensa dist√Ęncia, mais de 300 milhas (cerca de 480 quil√īmetros) . Ent√£o, n√≥s falamos por telefone duas ou tr√™s vezes por m√™s. Eu gosto de mandar livros de presente para meus netos. Sei que eles n√£o l√™em a maioria, mas quando eu pergunto se leram, sempre dizem: ¬ęClaro, vov√ī!¬Ľ.

Se le puede escribir a:
M√ļmia Abu-Jamal
AM 8335,
SCI Greene
175 Progress Dr.
15370 Waynesburg, PA

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* En: Revista Aventuras na História Рedição 38 Рoutubro de 2006 (http://historia.abril.com.br).

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