Nov 1 2005
817 lecturas

Economía

O Engraxate

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

 
‚ÄúPela obra se conhece o autor.‚ÄĚ
(Jean de La Fontaine)

 
 
fotoCaminhando pelo saguão do aeroporto miro meus pés e descubro sapatos que parecem tristes e cansados de tão opacos e descuidados. Dirijo-me até a engraxataria encontrando um ambiente pequeno e bem organizado. São quatro os profissionais ali posicionados diante de suas cadeiras revezando-se à espera dos clientes.

 
Assento-me e passo a observar um senhor bastante robusto, cabelos parcos e grisalhos, contando seguramente mais de cinq√ľenta anos, a exercer seu of√≠cio. Coloca-me cal√ßadeiras para proteger as meias, toma nas m√£os uma flanela, limpando cuidadosamente a superf√≠cie dos sapatos. Parece preparar-se para iniciar a confec√ß√£o de uma grande obra de arte.

 
fotoMeus pés repousam sobre a caixa, em verdade, seu cavalete. Tal qual um artista, ele admira os contornos da moldura definidos pelo solado. Em vez de óleo de linhaça, água. Em lugar de tinta, graxa. Um recipiente adaptado assume o papel de palheta. E um pincel e uma escova completam seu instrumental. A tela, já pode ser pintada.

 
Enquanto ele desenha sobre meus cal√ßados, um mundo de reflex√Ķes invade minha cabe√ßa. Sempre tive um estere√≥tipo de engraxate. Um garoto ainda muito jovem, percorrendo as ruas em busca de alguns trocados para refor√ßar a renda familiar. Uma atividade transit√≥ria, n√£o uma profiss√£o.

 
Por isso, ao olhar para aquele senhor que me atende, bem como aos seus colegas que nos avizinham, pergunto-me por onde anda a justiça dos homens que não permite àquelas pessoas, com suas idades já avançadas, com tantas experiências acumuladas, rugas que lhes tomam a face, cansaço que lhes abate os olhos, usufruírem de um trabalho menos desgastante e melhor remunerado, bem como de mais tempo e oportunidades de lazer.

 
Não que aquela atividade seja indigna. Ao contrário, talvez seja trabalho dos mais edificantes. Em tempos de valorização dos consumidores, quando tanto se apregoa que o cliente deve estar em primeiro lugar, um engraxate coloca-se de joelhos, diante daquele que lhe pede seus préstimos, com humildade e subserviência, altivez e competência.

 
Pincel que pinta, escova que limpa, flanela que lustra. Após alguns minutos, traços rabiscados completam o grafismo imaginado. A obra está acabada. Meu anfitrião olha-me nos olhos e com um amplo sorriso diz:

 
‚Äď Agora est√° brilhando…!

 
Sua express√£o √© de regozijo, de plena satisfa√ß√£o. A miss√£o foi cumprida. Seu talento p√īde se manifestar e ganhar as ruas para aprecia√ß√£o de todos.

 
Eu o cumprimento, apresento-lhe meus agradecimentos, pago a conta e sigo meu caminho, ainda mais pensativo diante de tamanho exemplo de dedicação e comprometimento. E agora, com os pés brilhando. E a mente iluminada.

——————————–

* Tom Coelho, com formação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP, especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA FEA/USP, é empresário, consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Consulting e Diretor Estadual do NJE/Ciesp.

Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.

(www.tomcoelho.com.br).

 

  • Compartir:
X

Envíe a un amigo

No se guarda ninguna información personal


    Su nombre (requerido)

    Su Email (requerido)

    Amigo(requerido)

    Mensaje

    A√Īadir comentario