Ago 29 2005
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Opinión

Quinze anos

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

“Há vários motivos para não se amar uma pessoa.
E um s√≥ para am√°-la‚ÄĚ.
Carlos Drummond de Andrade

 
H√° uma queixa recorrente e consensual entre as mulheres. Atualmente, est√° se tornando uma miss√£o quase imposs√≠vel encontrar um homem que re√ļna caracter√≠sticas como cavalheirismo, intelig√™ncia e intelectualidade aos atributos de um aut√™ntico Don Juan, tais como masculinidade, sensualidade e beleza f√≠sica. Tudo o que elas querem √© algu√©m capaz de tirar-lhes o f√īlego, surpreend√™-las, faz√™-las perder a racionalidade. Mas que depois as traga de volta ao plano terreno, √† objetividade e pragmatismo necess√°rios, sem deixar esvair o encantamento.

fotoH√° tamb√©m um consenso entre os homens. Nos dias de hoje, h√° mulheres para se curtir e mulheres para se namorar. E raramente s√£o as mesmas. A express√£o usual assemelha-se a: ‚ÄúUma garota como esta n√£o se encontra por a√≠… Cuide bem dela, mantenha este relacionamento. E aproveite para se divertir com as mulheres erradas, enquanto isso‚ÄĚ.

Entre um universo e outro o que os une √© a solid√£o. Mulheres de um lado, homens de outro, compartilhando a vida com amigas e amigos, √† espera de serem ‚Äútirados para dan√ßar‚ÄĚ. Parece que a sociedade moderna nos robotizou, tornou-nos t√£o mec√Ęnicos que perdemos a capacidade de nos apaixonar. E, mais ainda, de amar. Constru√≠mos um muro em nosso redor com tijolos de intoler√Ęncia. Ficamos t√£o seletivos que ficamos s√≥s.

Amar √© olhar para outra pessoa e mais do que admir√°-la, contempl√°-la, observando seus tra√ßos, suas fei√ß√Ķes, seus movimentos e n√£o desejar perder nem um mil√©simo de segundo, negando-se at√© mesmo a piscar. √Č ver a imagem da pessoa amada refletida em ‚Äúoutdoors‚ÄĚ, estampada no rosto de personagens da televis√£o. √Č ter uma m√ļsica em comum que marca um momento especial ou que se tornou especial por apenas representar a lembran√ßa de um momento. Lembro-me de M√°rio Quintana: Amar √© mudar a alma de casa.

Amar é dialogar, o que significa falar, mas também saber ouvir. Ter a sensibilidade para perceber quando o outro precisa apenas dizer tudo e de todas as formas, muitas vezes sem a preocupação de que você esteja ouvindo. Basta sua presença. Olhos que sinalizam atenção, silêncio que pronuncia respeito. Acolhimento, conforto, generosidade. Dar como alimento o carinho.

Amar √© descoberta. √Č desvendar sem pressa o passado de quem se gosta n√£o pela neurose de uma investiga√ß√£o, mas pelo prazer de apreciar aquela hist√≥ria como quem ouve um pequeno conto infantil ditado pelos pais ao lado da cama.

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Amar √© toler√Ęncia, √© concess√£o. N√£o significa mudar e nem exigir que se mude, mas estar disposto a se adaptar e esperar que se fa√ßa o mesmo. Ajustar expectativas, alinhar prop√≥sitos. √ą caminhar lado a lado, olhando juntos na mesma dire√ß√£o, ainda que com vis√£o perif√©rica apurada. Maiakovski pontuou acertadamente: ‚ÄúAmar n√£o √© aceitar tudo. Ali√°s, onde tudo √© aceito, desconfio que haja falta de amor‚ÄĚ.

Amar √© transpar√™ncia, √© dizer o que se pensa, sabendo a hora de falar. √Č n√£o praticar a omiss√£o achando ser poss√≠vel empurrar conflitos para sob o tapete at√© que um dia o vento espalhe tudo, maculando o que foi constru√≠do. Transpar√™ncia que gera credibilidade, que leva √† confidencialidade, que conduz √† lealdade. A lealdade que surge n√£o como um dever, mas como resultado da satisfa√ß√£o do exerc√≠cio da plenitude, de sentir-se completo.

Amar √© tocar. √Č beijo que acelera o pulso. Sexo com longas preliminares e aconchego posterior. Dormir abra√ßado, acordar junto. Filme com pipoca, chuva rom√Ęntica do lado de fora. Cuidar e ser cuidado. Promessas insanas de juras eternas ‚Äď a eternidade que se perde num instante. √Č dividir a liberdade.

fotoAmar √© superar adversidades, enfrentar o desafio da geografia que, √†s vezes, distancia fisicamente dois cora√ß√Ķes. √ą sentir a saudade como fruto da partida.

Amar √© intensidade, √© compreender a imperman√™ncia do tempo, sua relatividade. Significa rasgar os est√ļpidos calend√°rios, quebrar os imponentes rel√≥gios e compreender que o tempo tem uma outra dimens√£o. √Č prefer√≠vel um amor intenso de 48 horas a uma vida ins√≠pida compartilhada por uma d√©cada.

Amar √© se mostrar um grande espelho e permitir que o outro possa mirar-se em voc√™. Ver a si pr√≥prio enxergando aquilo que √© mais virtuoso, mais nobre. √Č ver de maneira perfeita uma pessoa imperfeita. √Č buscar o equil√≠brio, tomar cuidado com a ansiedade, a ang√ļstia, a incompreens√£o e as cobran√ßas. √Č ter coragem de tamb√©m sofrer.

Amar é tudo isso e um pouco mais. Ação que não se descreve, mas que se pratica. Coisas que sabíamos fazer quando adolescentes, aos quinze anos, quando éramos mais intrépidos, menos racionais e, por isso, capazes de sermos mais felizes.

 

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* Tom Coelho, com formação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP, especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA FEA/USP, é empresário, consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Consulting e Diretor Estadual do NJE/Ciesp.

www.tomcoelho.com.br

Correo ectrónico: tomcoelho@tomcoelho.com.br

 

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