May 27 2005
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Cultura

Una mirada femenina a lo sagrado y lo profano

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Martha Simões: a Sombra da Rosa e o Véu
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A primeira impressão que se tem quando deparamos com a instalação de Martha Simões é de que estamos diante de um trabalho em processo e não diante de uma obra fechada, racional, moderna. Uma obra modernista teria lógica e fio condutor, blocos de signos ligados entre si, cujas significações –graças a esta mesma lógica– seria decodificada por sua quase obviedade.

Veremos algumas distinções entre a postura da modernidade versus a pós modernidade; à simplificação da modernidade opõem-se a complexidade e a contradição da pós-modernidade; à unicidade modernista conflita com a tensão e a ambigüidade da pós-modernidade; ao processo exclusivo da modernidade –por exemplo, ou uma coisa ou outra– temos em oposição a inclusividade da pós-modernidade –ex: e uma coisa e a outra–; ao purismo da modernidade se opõe o hibridismo da pós-modernidade.

Na modernidade há uma unidade de pensamento e ação dentro de uma lógica óbvia, na pós-modernidade há um emaranhado de significantes (imagem visual do signo), que produzem uma vitalidade anárquica e caótica, com tudo que estes dois termos têm de positivo, pois abrirão ao fruidor uma gama enorme de significados (imagem mental do signo), enquanto na modernidade os significados são raros e rarefeitos.

Isso não sucede na instalação A Sombra da Rosa e o Véu, que produz um anseio de pós-modernidade, a partir do instigante título, que nos conduz ao caos criativo, à descontinuidade e à parataxe. Ao mesmo tempo a artista finca a sua tese em tema profundo e ambíguo: o Sagrado e o Profano no sítio da Capela do Morumbi.

Um dos procedimentos essenciais da pós-modernidade, se levarmos em conta a análise e a reconstrução poética privilegiadas pela pós-modernidade, é a parataxe (do grego, táxis, ordem, arranjo, mais o prefixo para). É o processo de dispor lado a lado blocos de significação sem que fique explícita a relação que os une. Na verdade esta relação nem sempre é sabida como ponto de partida pelo artista que vive o processo de análise e construção/ reconstrução poética.

Martha Simões juntou blocos de diferentes procedências e provenientes do passado, outro traço da pós-modernidade. E os juntou intuitivamente. Lá estão alquimias, teses de Mircea Eliade, Roland Barthes, Gaston Bachelard, Jorge Luis Borges, mitologias antigas etc. Sua intuição dizia que um bloco de significantes era compatível com outro, por mais aparentemente diversos que fossem em suas peculiaridades e naturezas.

Esta foi a sensação fundamental para que Martha Simões acionasse o processo de justaposição. A significação final da instalação deve-se a esse processo de coordenação entre os blocos exibidos, que é bem maior do que a simples soma que se possa fazer entre eles. É como se entre o conjunto dos seis blocos e a significação final houvesse no meio uma ausência, um buraco negro, a ser preenchido pela ação de justaposição, de tal forma que, se não houver esta ação, não haverá significação.

Para melhor compreensão do que venha a ser a parataxe, este redator criou um poema especialmente para a instalação. Assim, na transposição da linguagem visual para a verbal, o leitor possa melhor entender os recursos aplicados na obra:

 
A Sombra da Rosa e o Véu

 
Uma dança
de deuses
este
ritual
silente
ânima rediviva
a rosa
entre seis
portais
meias fêmeas
de seda
pétalas pesares
por entre véus
sem desvenda-los

 
Há uma aproximação de blocos de significação cuja relação não fica evidente, como em um sistema ideogramático, sintonia paratática entre lignosignos, para usar a expressão do poeta Cassiano Ricardo para substituir o termo verso na poesia atual, na qual não há rima nem sílabas tônicas. A parataxe pode ser assim: deuses/ritual /rosa /portais /dança /desvendar, surgindo uma significação subjacente total e totalizante que não é dada desde logo e que não está contida em qualquer um dos blocos, isoladamente.

Lembra-nos Teixeira Coelho: “É como se entre o conjunto dos blocos e a significação final mediasse um vazio, um buraco negro, a ser preenchido pela ação de justaposição, de tal modo que se essa ação não for exercida não haverá aquela significação. A primeira conseqüência disso é que a parataxe não admite a figura do receptor passivo: ou ele  mergulha no vazio e preenche esse espaço com sua própria trama ou não haverá significação para ele. Isto implica ainda, a rigor, que todo o processo paratático não é um processo de comunicação, mas, de início, um processo de expressão, de significação pura”.

A instalação de Martha Simões é, pois, um processo poético em que há parataxe visual, cada um dos blocos de seu religare (origem da palavra religião) tem cunho ecumênico, ou melhor, expressa religiosidade, mas não privilegia uma religião específica.

Além disso, é a expressão da religiosidade da mulher, por isso, entre o sagrado e o profano há as duas formas de sedução, as da religiosidade que funda e da sedução feminina que a aprofunda. Em seu primeiro altar há sete folhas de madeira e sete pares de meias de mulher, contraposição de materiais sedutores: a madeira pura e a meia da mulher sedutora, o que também acontece no segundo altar: azulejos brancos, ícone de uma pureza burguesa versus meias de fêmeas e cinturão de castidade, parataxe visual, que nos remete ao tempo em que as fêmeas eram impedidas de fazer amor, enquanto os maridos iam às Cruzadas.

O Sagrado versus o Profano e vice-versa. Uma rosa é posta no cerne da questão, tapa sexo e centro vital da possível profanação ou da possível sagração. A rosa é amorosamente fixada, como se desmembrada em amor/rosa/mente.

Além disso, no terreno do sagrado, Martha Simões construiu seis hierofanias à guisa de altar. Como nos explica Mircea Eliade, hierofanias “exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela”. Esta explicação é necessária quando se produz uma obra baseada em culturas arcaicas e revelações míticas de culturas do passado, como é o caso dessa instalação.

O humano ocidental moderno não entende e sente até um mal-estar diante de manifestações do sagrado. É-lhe difícil aceitar que uma pedra ou uma montanha seja sagrada. Na verdade, a pedra e a montanha não são adoradas como pedra ou montanha, mas sim porque se tornaram hierofanias, porque revelam algo que já não é mais nem pedra nem montanha, mas o sagrado, o ganz andere (a integração do outro).

São muitos os aspectos a ser considerados em A Sombra da Rosa e o Véu, mas sem dúvida Martha Simões escolheu um caminho sem volta, quando tenta passar para uma reflexão do pós-moderno e suas implicações pós Duchamp.

Sabemos ser solitário o caminho do artista que abre novas perspectivas para si baseado em teorias como a pós-modernidade, ainda não estão totalmente consagrados, mas sabemos também que sem sonhar com novas utopias a humanidade, na entrada desse terceiro milênio só irá globalizar a sua covardia e o seu comodismo.

 

A Fundação Mokiti Okada fica na Rua Morgado de Matheus, 77, Vila Mariana, São Paulo.
La muestra estará abierta hasta el 20 de junio. Horário de visitas: de segunda a sexta: das 10 às 18; sábados das 10 às 15 horas.

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* Crítico, escritor. Curador de la muestra.

Gentileza de Revista Agulha (www.revista.agulha.nom.br).

 

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