Sep 10 2007
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Cultura

Crônica de viagem. – EL OTRO EXOTISMO: UN BRASILEÑO EN PORTUGAL

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Em Lisboa, fui convidado a me hospedar em casa de um espanhol, um homem distinto, refinado, culto, de hábitos requintados que lhe conferiam um certo e inevitável pedantismo. Casado com uma brasileira, irmã de um amigo meu, simpaticíssima, que me recebeu de forma carinhosa, deixando-me bem a vontade.

Estava em Lisboa há uma semana já, era sábado de manhã e eu me preparava pra sair quando o Sr. dono da casa me comunicava, de forma polida mas direta e objetiva, que naquela noite eles estariam recebendo «pessoas especiais» para um jantar também especial, e que eu (um mero, simples e desinteressante brasileiro, com o qual ele trocou não mais que meia dúzia de palavras durante toda minha estada lá) não estava convidado.

Tranqüilizei a minha amiga brasileira, visivelmente constrangida, dizendo que eu achava absolutamente normal, e fui pra rua feliz da vida como sempre fico quando estou conhecendo um novo país. O sábado era de sol, verão, a temperatura amena e eu aproveitei para passar o dia em Sintra, a 40 minutos de trem de Lisboa. Um agradável passeio.

Voltei a tardinha, a casa toda preparada com requinte e bom gosto para o jantar, tomei um banho rápido e saí pra rua de novo. Lisboa me lembrou muito Salvador, sob vários aspectos, por isso me sentia em casa.

Naquela noite decidi conhecer o bairro de 3926Alfama, conhecido por seus restaurantes típicos. Caminhei muito, como de costume. Tinha almoçado sanduíches e a fome já se anunciava quando avistei um pequeno restaurante de aparência modesta. Ao me aproximar, lá de dentro, um senhor muito simpático me dizia: «Entre por favor , nossa humilde casa é sua». Era uma casa portuguesa com certeza.

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Uma antiga imagem de Sto. Antônio, um vaso de flores, azulejos, 4 mesas e pouca luz. Nem bem sentei e o senhor português já me servia uma jarra de vinho tinto e um cestinho de pães. Não havia cardápio e o único prato servido naquela noite era arroz de pato ao forno. Uma senhora sorridente, simpática, com lenço na cabeça e avental bem coloridos me servia aquela simples refeição que eu comia, lambia os dedos e queria mais, tão bom que estava.

Comentava com o casal que eu também cozinhava e que era a primeira vez que eu comia arroz de pato ao forno e tão saboroso. «Em verdad –dizia-me ela– são sobras do pato assado do meio dia que desfiei», e generosamente me deu a receita.

Eu já era o último freguês, o casal sentou-se a minha mesa, curiosos e contentes por estar recebendo em sua casa um brasileiro. A conversa já ia longe, animada, quando ele me perguntou se eu gostaria de ouvir um fado. De imediato, a senhora chamou uma filha, ainda menina, e os três, ele na viola, elas alternando primeira e segunda voz, cantavam para mim um fado tão lindo quanto triste. Eu visivelmente emocionado, com os olhos marejados, assistia àquele singular e singelo espetáculo, congelando a imagem na memória e no meu coração.

O vinho tão bom, a comida deliciosa e o carinho daquelas pessoas tão simples, melhor ainda.

Era quase meia noite quando eu deixava, meio trôpego, o pequeno restaurante, voltando para casa a pé, contente como passarinho novo, eu voava, eu caminhava sob o céu noturno de Lisboa, observando aqui e ali os sinais de um povo tão particular. Uma pequena ruela com casas velhas, chamada Rua do Recolhimento. No alto do portão de ferro daquela casa antiga, uma placa pendurada: Pranto, Escola noturna de canto.

Tudo sabia a fado, a melancolia. Eu não, «eu não sou daqui, marinheiro só…»

Ao descer uma ladeira íngreme, escorreguei e caí de joelhos, quando duas senhoras, visivelmente preocupadas, corriam em meu socorro e uma me perguntava: «Magoou-se?» E a outra: «Aleijou-se?» Eu sorria feliz e dizia, nem um nem outro, muitos antes pelo contrário. Um tipo de humor particular havia naquelas plaquetas, em cima dos balcões doas bares mais populares, onde se lia: Aproveita ben a vida pois vais ficar muito tiempo morto.

Ao chegar em casa (havia esquecido) os convidados todos, ainda, lá. Música clássica, conversa sussurrada, velas, lírios brancos, champanhe, alguns já dormitavam sentados. O charme era discreto mas o tédio não. O tédio nunca é discreto.

Fui apresentado (inevitável) e antes de me retirar alguém me perguntava se eu estava gostando de Lisboa. Respondi sem a menor cerimônia, fiz a diferença de quem fala a mesma língua mas que pertence a outra classe social, mais ainda, a outro hemisfério. Sem esquecer nenhum detalhe (para o espanto do dono da casa) o pato, o fado, o carinho, o tombo e o prazer inigualável de andar a pé, sob o céu noturno de Lisboa, trôpego do vinho caseiro.

As vozes aumentavam de volume, mais champanhe, todo mundo bem acordado, as despedidas efusivas e eu parecia o dono da casa.

No outro dia pela manhã, acordei e me dirigi à sala de refeições, o casal a postos, sentei, tomei silenciosamente meu café da manhã. O Sr. Espanhol levantou-se e, antes de se retirar, me olhou e disse: «Seu Pato requentado surpreendeu e animou nosso jantar de ontem, por isso, sou-lhe imensamente grato». Apertou minha mão e saiu.

«Ele foi absolutamente sincero» dizia-me a minha amiga brasileira antes que eu perguntasse.

«…Povo que lavas no rio e que talhas com teu machado as tabuas do meu caixão…» me lembrei, assim começava o fado que aquela inesquecível família cantou para mim.

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cgrassioli@hotmail.com.

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