Nov 2 2005
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Economía

O DIA MUNDIAL SEM CARRO NA CIDADE MARAVILHOSA

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Mais um ano e nada acontece no Rio de Janeiro para melhorar a qualidade de vida, que, como muitas cidades pelo mundo, vive para os carros e não para as pessoas. A diferença está em que nas outras capitais existem grupos de pressão que exigem dos governos novas atitudes.
O dia mundial sem carro é sempre no dia 22 de setembro, nasceu em Paris e a cada ano há mais cidades aderindo ao movimento.

Em algumas existe o apoio das prefeituras, mas em outras os pr√≥prios habitantes tomam a iniciativa. Quem participa deve deixar seu carro em casa e procurar outro transporte na tentativa de melhorar sua qualidade de vida. Os mais engajados n√£o t√™m autom√≥vel, mesmo tendo dinheiro. √Č uma a√ß√£o pol√≠tica que acontece em mais de mil e quinhentas cidades pelo mundo que buscam novas alternativas para seus problemas de transporte. Trata-se de uma data de conscientiza√ß√£o ideol√≥gica e pr√°tica, tanto para os governos como para as pessoas de um modo geral.

Devem existir muitos motivos pelos quais as pessoas e o governo do Rio de Janeiro n√£o tomam conhecimento ou n√£o fazem quest√£o de participar desta importante data. Arrisco que existe no carioca, por tr√°s de sua auto-imagem de povo amigo, um individualismo cr√īnico que detesta pol√≠tica e coletividade. Aqui a maioria quer ser bacana e ningu√©m quer passar por pobre. O carro √© muito mais do que um transporte: √© uma distin√ß√£o social pela qual muitos consumidores gastam grande parte de seus sal√°rios e de suas vidas comprando, mantendo e renovando suas m√°quinas.

As pessoas est√£o dominadas

Em qualquer parte do mundo √© desse jeito, as pessoas est√£o dominadas pela ind√ļstria do autom√≥vel e n√£o enxergam e nem querem saber de outras possibilidades, mas isso n√£o √© igual nem eterno em todos os cantos do planeta.

Em alguns dos países mais ricos do mundo o carro perde espaço nas cidades, como na Alemanha, por exemplo, onde aproximadamente 27% da população vive sem carro e vai de bicicleta ao trabalho porque, simplesmente, gosta desse transporte. Claro que lá o contexto urbano é diferente, mas também é a mentalidade ecológica dos alemães, entre outros fatores, que faz acontecer essa melhor qualidade de vida, que não nasce de um dia para o outro nem chega pela graça de Deus ou das autoridades.

Aqui a mentalidade √© outra e de f√°cil resposta: como a cidade do Rio de Janeiro poderia participar do Dia mundial sem carro se a pessoa que anda no transporte p√ļblico fica louca para ter um carro e aquela que anda fechada na sua carroceria vive a m√°quina como se fosse seu pr√≥prio corpo?

A ideologia das quatro rodas est√° t√£o incorporada na sociedade brasileira que ningu√©m questiona nada de fundo. Por exemplo, fala-se muito da imprud√™ncia no tr√Ęnsito, mas n√£o da pot√™ncia dos carros que saem das f√°bricas prontos para atingir velocidades assassinas proibidas na lei. De fato, vede-se carros que prometem 250 km/h para o usu√°rio, quando, na verdade, a velocidade m√°xima, nas melhores estradas do pa√≠s, n√£o pode ir al√©m de 110km/h. Estimula-se a cada instante na televis√£o o consumo dessa vertigem adolescente que, como as drogas, mata e √© ilegal.

Quem n√£o perdeu um parente no tr√Ęnsito ou perde horas nos engarrafamentos? Quem n√£o pensa que seria belo viver sem o barulho dos motores? Mas isso, no individualismo carioca, n√£o interessa de verdade, o importante √© ter carro pr√≥prio e mais espa√ßo nas ruas, assim como vagas de gra√ßa nos shopping.

Realmente, o que os motoristas do Rio de Janeiro esperam das autoridades √© que melhorem o asfalto das ruas, fa√ßam mais viadutos, transformem as cal√ßadas em estacionamentos e, entre outras medidas, acabem com os flanelinhas, os ladr√Ķes e as crian√ßas nos sinais. A ind√ļstria do autom√≥vel pensa pela pessoa e afirma por ela, que o mais importante na cidade √© facilitar a exist√™ncia do motorista, pois, para ela, a qualidade de vida √© quantidade de carros.

fotoSó resta lamentar

S√≥ resta lamentar que o Rio de Janeiro seja mais uma grande garagem sem vaga para todos seus ve√≠culos. Aqui, como em qualquer mega-cidade, deveria haver no m√≠nimo quinze linhas de metr√ī e outras dez de trens para poder sair e voltar da cidade sem maiores transtornos, al√©m de vias especiais para √īnibus ecol√≥gicos e outras para bondes modernos; todos esses meios interligados sem saturar o sistema, possibilitando o conforto e a rapidez no transporte.

Para que a cidade seja realmente maravilhosa deveria ser para as pessoas, com largas e exclusivas calçadas para pedestres, com ciclovias e áreas verdes para desfrutar do seu clima e da sua paisagem no dia a dia. Como em qualquer cidade que realmente aprecie seus habitantes o Rio de Janeiro deveria ter muito mais moradias, hospitais e escolas do que vagas para carros. Contudo, seria ridículo afirmar que todos os problemas da cidade sejam por causa desse objeto de desejo, mas, com certeza, diminuindo sua presença nas ruas e nas mentalidades poderiam se desenvolver outros projetos mais interessantes.

Tudo isso √© utopia (ou um papo muito chato) que ningu√©m acredita que seja nem um pouquinho vi√°vel: uma perda de tempo da minha parte e dos leitores que sonham com uma cidade inteligente. Assim sendo, o presente √© sombrio e o futuro pat√©tico, pois sem uma renova√ß√£o do pensamento e das pol√≠ticas p√ļblicas, que se preocupem mais no coletivo do que no consumidor automobil√≠stico, a cidade ser√° cada vez mais intransit√°vel, al√©m de violenta.

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* Professor universit√°rio e ciclista amador.
Correo electrónico: godoyfajardo@yahoo.com.br

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