May 8 2009
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Opini贸n

O dom de iludir

Carlos Grassioli*

Nem toda a dor é triste, mas toda a tristeza dói.
Muito embora uma remeta à outra, tristeza não é mesma coisa que depressão. A primeira tem a ver com a vida, mesmo que às vezes, de forma figurativa, pode-se morrer de tristeza. Já a depressão, essa sim, remete a uma espécie de morte e dela eu quero distância.
En portugués.

“Os grandes artistas são aqueles que fazem a humanidade aceitar sua ilusão particular”. G. de Maupassant.
 
Tanto quanto a alegria, a tristeza faz parte da vida e o ato de refletir sobre ela, não significa, necessariamente, que se esteja triste. E mesmo que estivesse, até “Pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Não é assim que reza o samba?

Ou como diz outro poeta: “ Belezas são coisas acesas por dentro, tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”. Beleza, grandeza e tristeza, além de rimarem, muitas vezes andam juntas.

Num dia que começa aqui onde eu vivo, como se uma pincelada cobrisse toda a paisagem de um cinza suave, não permitindo que uma única cor acorde, então podemos ter juntas, tímidas, mansas e rimando também, natureza, beleza e tristeza.

Já a tristeza de constatar, por exemplo, o índice de audiência de um “big brother”, essa, não por acaso, rima com torpeza e pobreza e em relação a ela, não tenho outra alternativa a não ser a do o silêncio resignado. Mas não de quem cala consente. Não mesmo!

Alegrias ou tristezas, umas pertencem ao aqui e agora, outras são de ontem e outras, ainda, são as que virão. André Gide dizia que tristezas do presente, podem ser alegrias do passado vistas de costas.

Existe um tipo muito particular de tristeza e eu acredito, que por ser atávica, seja comum a todas as pessoas, porque já nasce com a gente e existe para todo e sempre.

Não sabemos se quer sua origem ou natureza, mas a conhecemos, porque sentimos e ela fica lá no fundo da alma, como se fosse a dose certa de alguma coisa, como um anticorpo que nos previne de dores maiores ou está lá, simplesmente, para confirmar nossa humanidade.

Pode até passar despercebida, até o momento em que, no contato com a poesia, ou através da simples contemplação da beleza, ou mesmo, ao sentir uma espécie de saudade de pessoas ou de lugares que nunca vimos, ela vem à tona e nos surpreende, sobretudo por sua singular humanidade. E porque, também, nos remete a um sentimento de solidão essencial, mansa e muito particular, que nada tem a ver com o fato de estarmos ou não sozinhos. Já a vi estampada, até mesmo nos rostos das crianças.

E existe outra ainda, pra mim, a mais triste de todas e que tem a ver com a dor da desesperança, do desespero. Ao ultrapassar o limite do suportável, é como se dentro de si enfeixasse todas as tristezas do mundo. Eu nunca senti, mas eu a conheço porque a vi, adolescente ainda, estampada no rosto de minha mãe, ao perder de forma trágica, uma filha ainda jovem.

Ali eu compreendi que não se pode fazer nada para aplacar a dor do desespero quando ele é absoluto, nem mesmo a compaixão. Uma espécie de sentimento que remete, talvez, ao pior tipo de solidão que um ser humano pode conhecer: a de estar infinita e definitivamente só na sua dor.
E eu havia esquecido desse tipo de tristeza, até o dia em que, já adulto, assisti pela primeira vez o filme La Strada, de Fellini e que acabei de ver de novo ontem à noite e em casa. Por isso este texto.

Quem assistiu dever saber a que eu estou me referindo.

À tristeza solitária de Zampano, o cigano ilusionista e mambembe, interpretado magistralmente por Anthony Quinn, ao descobrir, no final do filme, que seu fantástico clown, sua palhacinha Gelsomina, (maravilhosa Giulietta Masina) que ele havia abandonado na beira da estrada porque tinha enlouquecido de tristeza, havia morrido sozinha.

Numa luz difusa em preto e branco de um céu noturno à beira mar, sentindo-se culpado, profundamente só e triste, ele quase se arrasta de tão embriagado. O tempo, os movimentos da câmera e do ator são perfeitos. A cena é muda porque a expressão de tragédia estampada no rosto do personagem, por si só, revela o infinito e absoluto sofrimento, de quem traz a alma e o coração dilacerados.

Nesse momento o desespero de Zampano é absoluto como a sua tristeza e ele está infinita e definitivamente só na sua dor.

O filme em preto e branco é uma obra prima de grande mestre e pra mim a cena final traduz, de forma arrebatadora, contundente e inesquecível, então com beleza e grandeza, um tipo de dor e tristeza humana poucas vezes vista no cinema. Anthony Quinn em um dos seus melhores momentos, eu diria, de glória para um ator. E de felicidade!

Fellini, Giulietta Masina, Anthony Quinn, Dino de Laurentis , Carlo Ponti e Nino Rota, que combinação fantástica! Uma verdadeira trupe de profetas da ilusão.  Que saudades do cinema sem efeitos especiais, mas feitos especialmente à mão, por verdadeiros poetas e mestres da ilusão, que os anos não trazem mais!

Eu penso que toda arte tem o dom de iludir, todo o artista, no fim das contas, não faz mais do que expressar sua visão pessoal do mundo, sua ilusão particular. E na arte de criar ilusão, pra mim, o cinema (em preto e branco então) o circo e o teatro, são imbatíveis.

Ilusão de ótica ou não, aqui e agora, a luz solar é branda de outono.

Bem na minha frente, abaixo da linha do horizonte, um imenso azul-manso-agua, me liga com o alem mar, com o mundo. Acima dessa mesma linha, o céu é de um outro azul, um azul abusado, sem escrúpulos. E embaixo desse céu de onde não cairá o pão de cada dia, minha fome começa a se anunciar.

O arroz integral já está pronto, mas o peixe fresco e pescado aqui mesmo, mais a salada, precisam ainda ser feitos. Por isso e com isso encerro esta crônica, através da qual espero ter conseguido me reportar à tristeza, sem maiores tristezas. Só aquela que já nasce com a gente, mas essa também está lá, quietinha, bem no fundo da alma.

Tanto que até posso arriscar uma musiquinha que combine com meu vivace ma non tropo ou non tropo…mas quase alegre.

Por exemplo?
“É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a maior coisa que existe…”

* Escritor.

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