Feb 25 2005
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Economía

O Mundo dos Contratos

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Recordo-me de um tempo, em minha tenra inf√Ęncia, em que me dirigia at√© um armaz√©m na esquina de casa, a pedido de minha m√£e, para buscar p√£o e leite. N√£o necessitava levar dinheiro ou um bilhete assinado. Bastava minha presen√ßa para trazer o que fosse preciso. O acerto de contas era assunto a ser tratado posteriormente. Coisa de adultos.

 
Quando chegava o verão, eu podia inclusive dar-me ao luxo de passar pelo mesmo armazém e apanhar um refrescante sorvete de palito. Claro que resguardados certos limites Рlevar o time de futebol para compartilhar deste privilégio era atitude passível de severa punição: a perda da confiança de meus pais.

 
O dono do armazém consentia com este procedimento porque tinha certeza de que meus pais pagariam a conta. Analogamente, meus pais acreditavam que o valor apresentado como despesa seria justo e correto, correspondendo exatamente ao que fora consumido.

 
Cresci compreendendo que aquela situa√ß√£o representava uma esp√©cie de contrato social, calcado na honra e na palavra, ao que se convencionou chamar de ¬ęfio de bigode¬Ľ. E percebi que aquilo fazia parte de minha forma√ß√£o, de minha cultura e de meu car√°ter. De tal forma que o empr√©stimo, entre colegas, de livros, discos de vinil (sim, CD neste tempo eram apenas a terceira e quarta letras do alfabeto) e at√© pequenas import√Ęncias em dinheiro, era selado pelo mero compromisso pessoal da devolu√ß√£o em perfeito estado de conserva√ß√£o.

 
Anos mais tarde uma oportunidade de trabalho bateu à minha porta. O destino era uma pequena cidade que contava, na ocasião, pouco mais de 80 mil habitantes. Aconchegante, bem estruturada, mas uma típica cidade interiorana.

 
L√° fiz amizade com um carioca, j√° radicado no local h√° um par de anos, que sentenciou o que me aguardava. Disse-me ele: ¬ęAqui, voc√™ √© mocinho at√© que se prove o contr√°rio. Nos grandes centros, de onde viemos, √© o oposto, ou seja, somos bandidos at√© que provemos o contr√°rio¬Ľ. Dias depois pude vivenciar aquelas palavras. E lembrei-me daquele armaz√©m de minha inf√Ęncia.

 
As duas √ļltimas d√©cadas nos legaram abund√Ęncia de recursos, tecnologia sem precedentes, capacidade de comunica√ß√£o quase ilimitada. Migramos do racionamento para o delivery, do mundo anal√≥gico para o digital, do telex para a videoconfer√™ncia. E do ¬ęfio de bigode¬Ľ para o papel assinado.

 
Casamentos demandam acordos pr√©-nupciais, institui√ß√Ķes de ensino firmam contratos de presta√ß√£o de servi√ßos, reuni√Ķes s√£o registradas em livros de ata. Advogados grassam aos milhares. Uns, para elaborar contratos; outros, para contest√°-los. Sem falar do magistrado que delibera qual dos dois ser√° agraciado com a raz√£o.

 
O contrato social verbal est√° extinto. Vigoram apenas os contratos pol√≠ticos, econ√īmicos e at√© ecum√™nicos. Um mundo de contratos, impressos em cinco vias, com duas testemunhas, registrados e com firmas reconhecidas. Um mundo burocr√°tico e cartorial onde uma pessoa conhecida por escriv√£o, dotada de uma concess√£o denominada f√© p√ļblica, tem o poder discricion√°rio de dizer se eu sou mesmo a pessoa que declaro ser.

 
De tanto ouvir a assertiva ¬ęquem paga mal, paga duas vezes¬Ľ, passei a andar com um tal√£o de recibo em minha pasta. E arquivo comprovantes de pagamentos durante meses.

 
De tanto prestar servi√ßos com remunera√ß√£o vinculada ao √™xito, que quase sempre obtenho, sendo desdenhado pelo cliente no recebimento de meus honor√°rios – o mesmo cliente que outrora, em dificuldades, faria qualquer coisa para reverter sua situa√ß√£o – passei a solicitar-lhes uma assinatura ao final de cl√°usulas e par√°grafos. Ainda estou aprendendo a fazer isso, posto que contr√°rio √† minha natureza. Mas estou aprendendo…

 
Hoje, quando entro em uma padaria e me deparo com um pequeno aviso anunciando ¬ęFiado s√≥ amanh√£¬Ľ, desperto para este novo mundo. Compreendo que a palavra ¬ęfiado¬Ľ adv√©m de ¬ęconfiado¬Ľ, e que confian√ßa √© algo que antes nascia com a gente, depois passou a ser virtude dif√≠cil de ser conquistada e, agora, corre o risco de habitar apenas os dicion√°rios e romances dos s√©culos passados.

 
Acho que foi por conta disso que resolvi deixar o bigode crescer e me mudei para o interior. Só para ser tratado como mocinho e poder, por mais algum tempo, confiar e ser confiado.

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* Tom Coelho, com formação em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP, especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário, consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Consulting e Diretor Estadual do NJE/Ciesp.

tomcoelho@tomcoelho.com.b

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