Ene 15 2007
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Cultura

Sentimientos. – CARTA A HELENA

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Mais um Natal passou e, a exemplo de outras pessoas, também não o comemorei. Alguns deixam de fazê-lo por princípios religiosos, por não comungarem das práticas do Cristianismo. Outros, porque mesmo sendo cristãos, esquecem-se do significado da data, convertendo-a em justificativa para a mera troca de presentes. E há ainda aqueles para os quais o dia não é festivo porque traz consigo a lembrança da partida de pessoas amadas.

A noite do dia 24 de dezembro simbolizava a reunião de meus pais, irmãs e outros poucos familiares para compartilhar de uma refeição que minha mãe preparava com um carinho sem igual. Lembro-me do arroz com passas, do pernil, do tender e do lombo, além de saladas diversas e uma grande variedade de frutas.

A mesa era preparada com esmero. Uma toalha nova com belas estampas recobria o tampo de vidro para receber os pratos, copos e talheres. E minha m√£e, depois de finalizados todos os preparativos, vestia sempre uma roupa leve como ver√£o e bela como ela para receber os convidados.

Minha m√£e teve que nos deixar numa manh√£ fria, cinzenta e chuvosa de um novembro. Desde ent√£o, n√£o h√° mais uma ‚ÄúNoite Feliz‚ÄĚ para ser apreciada.

Na antev√©spera do √ļltimo Natal recebi um telefonema surpreendente e agrad√°vel. A liga√ß√£o foi parar na caixa postal de meu celular que, por acaso, resolvi naquele dia acessar. O correio de voz trazia uma mensagem de Dona Helena , m√£e de meu amigo Marcelo. Foram apenas dois minutos de pura sinfonia.

Freq√ľentei a casa de Marcelo em minha adolesc√™ncia, quando principiava no ensino m√©dio. √Čramos de classes sociais distintas e mor√°vamos geograficamente bastante distantes, mas isso nunca foi empecilho para que nos torn√°ssemos grandes amigos. Numa √©poca em que a internet ainda engatinhava, nossa divers√£o passava por tiros com espingarda de chumbo no telhado do vizinho para despert√°-lo na calada da noite, ver e comentar revistas er√≥ticas adquiridas com grande constrangimento e dificuldade nas bancas de jornal, um trago de u√≠sque sem gelo para selar nossa amizade.

Mas aquelas visitas guardavam ainda um momento muito especial representado pelas refei√ß√Ķes que faz√≠amos juntos. √Ä mesa eram preparados assentos para mim, meu amigo, seus pais, duas irm√£s e uma √ļltima cadeira que permanecia reservada ao irm√£o Alexandre, que em tenra idade havia partido em decorr√™ncia de um tr√°gico acidente automobil√≠stico. Eu fitava aquela cadeira num misto de surpresa e inquietude, incompreens√£o e admira√ß√£o.

Mais de uma década depois a doutrina kardecista trouxe-me algumas respostas e a leitura de um livro que abordava a perda de um filho sob a ótica dos pais levou-me a escrever uma carta para Dona Helena. Naquela carta, além de manifestar todo meu carinho por sua família, eu lhe dizia que jamais poderia imaginar a amplitude da dor de sua perda, mas que agora a incompreensão havia partido e apenas a admiração permanecia. Foi para comentar esta carta que Helena me telefonou naquele dia.

O resto desta est√≥ria fala sobre um encontro que h√° anos n√£o ocorria. Na mesma mesa em que faz√≠amos aquelas refei√ß√Ķes, conversamos demoradamente. Um filho sem uma m√£e, uma m√£e sem um filho. Entre l√°grimas e sorrisos, pudemos nos presentear, oferecendo um ao outro, um pouco do Natal que um dia tivemos.

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* Tom Coelho, com formação em Economia pela FEA /USP, Publicidade pela ESPM/SP, especialização em Marketing pela Madia Marketing School e em Qualidade de Vida no Trabalho pela USP, é consultor, professor universitário, escritor e palestrante. Diretor da Infinity Consulting e Diretor stadual do NJE/Ciesp.

tomcoelho@tomcoelho.com.br.

www.tomcoelho.com.br.

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