Sep 11 2006
925 lecturas

Opini贸n

Viaje inici谩tico. – ANARQU脥A EN LA AMAZONIA

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Estava faltando um livro digno de cr茅dito, um livro de ci锚ncia, de paci锚ncia e de empatia sobre os 铆ndios jivaros. Est谩 aqui. E a dificuldade n茫o era pequena, pois os jivaros prezam ao extremo sua independ锚ncia.

Disseminados pela alta Amaz么nia, no Piemonte andino, deslocando-se a cavalo na fronteira do Equador e do Peru, mant锚m entre eles rela莽玫es t茫o complexas quanto m贸veis, turbulentas e incessantes 鈥揳lgo que, na aus锚ncia de dados te贸ricos, por muito tempo os manteve 脿 dist芒ncia de qualquer compreens茫o extr铆nseca鈥.

O belicismo, as 芦cabe莽as encolhidas禄, a zarabatana e o curare durante muito tempo garantiram a m谩 reputa莽茫o dos jivaros. Sua irreligiosidade, sua desenvoltura sexual 鈥揺les s茫o pol铆gamos鈥 e sua anarquia social escandalizaram os primeiros mission谩rios.
Em 1889, o abade Fran莽ois-Pierre escreveu:

芦A fam铆lia jivaro 茅 um lupanar no qual a devassid茫o mais desavergonhada 茅 exposta sem restri莽玫es nem pudor禄, e, em 1895, o padre Vacas Galindo os descreveu como 芦materialistas禄, 芦sensualistas禄 e 芦positivistas extremos禄.

Aqui, como em outras paragens, o olhar colonial transforma qualidades em defeitos.
As civiliza莽玫es orais s茫o analfabetas, os homens que andam de p茅s nus se transformam em miser谩veis vagabundos, os n茫o-crentes s茫o tachados de ateus, e mesmo seu saber em mat茅ria de taxidermia e prepara莽玫es qu铆micas (drogas e venenos) 茅 desqualificado, pois os cronistas n茫o enxergavam neles mais que pr谩ticas ocultas, perversos desvios da ci锚ncia.

N茫o mencionemos o nonsense hist贸rico que representa seu sistema social, o grau zero de integra莽茫o. Sim, os jivaros desafiam as leis fundamentais da sociologia: individualistas sem p谩tria, anarquistas sem Estado, autarquistas espont芒neos que t锚m a guerra por nervo social, eles souberam tornar vi谩vel o inviv铆vel 芦estado de natureza禄 de Thomas Hobbes.

foto
Philippe Descola conhece o paradoxo jivaro pessoal e profundamente. Ele parte para o terreno jivaro com a bagagem do acad锚mico formado na Escola Normal [em Paris] e o olhar agu莽ado do estruturalista. Ele vai pesquisar na regi茫o do rio Pastaza, no Equador, durante mais de dois anos e meio.

O grupo achuar, o 芦povo das palmeiras禄, distribu铆do em grupos familiares distantes e aut么nomos, forma uma tribo molecular de cerca de 4.500 indiv铆duos, mas, devido aos conflitos de fronteira, o etn贸logo s贸 ir谩 abordar aqueles que vivem na parte equatoriana.

Insubmissos

Como os xuares, os aguarunas e os huambisas, os achuares s茫o jivaros. Falam um dialeto que os liga aos outros e, pelo estilo de vida, o gosto pelas vendetas e o senso da d铆vida 鈥搒em falar em sua obstina莽茫o em viver nos moldes de seus antepassados鈥, formam o derradeiro basti茫o dos insubmissos.

Em As Lan莽as do Crep煤sculo, Descola (abajo, der.) lhes rende uma homenagem fundamentada ao mesmo tempo em que declara 鈥揷om a emo莽茫o controlada de um L茅vi-Strauss鈥 a parte subjetiva de seu empreendimento.

芦A Amaz么nia desconcerta os engenheiros da mec芒nica social e os temperamentos messi芒nicos; ela 茅 o terreno predileto dos misantropos razo谩veis que amam, no isolamento dos 铆ndios, o eco de sua pr贸pria solid茫o, que s茫o ardentes em defesa dela quando v锚em amea莽adas sua sobreviv锚ncia, sua cultura e sua independ锚ncia, n茫o para conduzi-los a um destino melhor, mas porque rejeitam ver imposta a outros a grande lei comum 脿 qual eles pr贸prios sempre tentaram se esquivar禄.

Em As Lan莽as do Crep煤sculo, Descola (abajo izq.) adota o tom da cr么nica para melhor oferecer uma aula de etnologia. Procedendo por quadros, sob a desculpa de narrar a vida cotidiana, mostra como a teoria se articula com o vivido. Cada recorda莽茫o evoca um tema, e cada tema uma reflex茫o ou o ponto de partida de uma tese in茅dita.

Essa maneira de proceder, que pode parecer sistem谩tica, possui a vantagem de mostrar o eterno trabalho de aprendiz do etn贸logo, a forma莽茫o de sua sensibilidade e de sua autoridade, sem jamais perder de vista os fatos e os gestos daqueles que ele estuda.
Assim, a primeira qualidade deste livro 茅 sua sutileza. Descola nunca se deixa cair em clich锚s nem na teoria pronta. Possui o dom de farejar o sentido onde existem apenas fatos.

fotoSe bem que s茫o os achuares que, em 煤ltima an谩lise, v茫o lhe emprestar sua l贸gica e, al茅m do car谩ter de cada um, das hist贸rias e das anedotas privadas, lhe permitir茫o apreender um perfil social, uma personalidade 鈥揺m suma, os mil caminhos pelos quais se interiorizam as regras difusas da comunidade鈥.

A comunidade? Apesar de sua propens茫o 脿 disc贸rdia e 脿 atomiza莽茫o, os achuares s茫o ligados a ela pela l铆ngua, pelo sistema de parentesco, pela troca de bens, pelas t茅cnicas de ca莽a e de pesca, por sua maneira de viver o tempo em v谩rios registros, por sua cren莽a em esp铆ritos malignos, por seu consumo da droga ayahuasca e at茅 mesmo, na adversidade, pela viol锚ncia ritualizada.

Apesar de seu voto de objetividade, Descola toma partido, e As Lan莽as do Crep煤sculo, ao narrar uma ca莽ada a porcos selvagens ou recolher os relatos de sonhos e de c芒nticos votivos, nos apresenta uma verdadeira 芦defesa e ilustra莽茫o禄 do pensamento selvagem.

Descola fala a l铆ngua dos achuares. Isso lhe permite atenuar o car谩ter aproximado das informa莽玫es que recebe e evitar as fantasias 鈥搊s fantasmas鈥 do int茅rprete. Ele recorta e reconstr贸i o que 茅 dito, para recoloc谩-lo em cena numa r茅cita cursiva.

A vantagem dessa abordagem 茅 que os mitos, por exemplo, n茫o s茫o 芦biblificados禄 ou 芦vitrificados禄 na p谩gina do livro e que os 铆ndios que os relatam n茫o s茫o seres gen茅ricos, mas pessoas que vivem numa dada situa莽茫o, que t锚m um nome e que habitam sua palavra.

Parte da paisagem

De passagem, Descola aproveita para dizer que a etnologia n茫o 茅 芦um ac煤mulo emp铆rico de conhecimentos禄 nem 芦uma est茅tica do relativismo禄 nem tampouco 芦uma hermen锚utica das culturas禄 e que ela nos ensina a amar a humanidade 芦sob seus outros rostos禄.

Sem cair no vi茅s autocentrado da 芦etnologia de si mesmo禄, Descola n茫o esquece que faz parte da paisagem que descreve: ele se observa observando.

Com mais de 500 p谩ginas, dividido em 24 cap铆tulos, com um pr贸logo, um ep铆logo e um post scriptum, As Lan莽as do Crep煤sculo apresenta um invent谩rio quase completo da vida jivaro. O etn贸logo toma o tempo necess谩rio para nos apresentar seus amigos, nos conduz 脿s ro莽as e 脿 taxonomia das plantas cultivadas, nos faz assistir diretamente 脿 fabrica莽茫o de uma zarabatana ou participar de uma pescaria.

As doen莽as, as trocas, o xamanismo e a morte s茫o evocados com o m铆nimo de dist芒ncia que caracteriza o profissional e o discreto senso de teatralidade que qualifica o escritor.
A ca莽a, o besti谩rio amaz么nico e at茅 mesmo o status dos c茫es dom茅sticos: nada 茅 esquecido no livro.

Descola compartilha com os jivaros 鈥搎ue disp玫em de 42 nomes diferentes para designar as formigas e distinguem 33 esp茅cies diferentes de borboletas鈥 a paix茫o insaci谩vel pela zoologia. Podemos imaginar que isso lhe deve ter valido um pouco de estima e muita amizade nessa regi茫o.

Nada escapa do olhar do 芦jivar贸logo禄. Ele observa, por exemplo, que o pirilampo ganha o nome de 芦yaa禄, como as estrelas. Ele faz o invent谩rio dos diferentes tipos de discurso e de elocu莽茫o, que, na conversa ritual, exercem o mesmo papel que o bemol ou o sustenido nas partituras musicais.

fotoApoiando-se nos estudos de sua companheira, Anne Christine Taylor, ele prop玫e uma teoria nova para explicar as 芦cabe莽as encolhidas禄 (a la derecha**) e faz uma descri莽茫o quase pontilhista das mulheres. Tamb茅m lhe acontece de praticar uma esp茅cie de humor discreto, 脿 maneira dos ingleses.

Para explicar a brevidade das rela莽玫es sexuais entre os jivaros, escreve: 芦脡 verdade que, com a alta concentra莽茫o de insetos desagrad谩veis e de plantas hostis, a natureza nessas latitudes n茫o incita ao prolongamento exagerado do amor ao ar livre禄. Mais adiante, falando do t茅dio e das civiliza莽玫es lentas, do tempo ampliado, ele arrisca uma hip贸tese, sem, entretanto, atribuir cr茅dito demasiado a ela: 芦Os 铆ndios parecem sofrer de t茅dio tanto quanto n贸s sofremos 鈥搖m pouco menos, talvez, gra莽as 脿 divers茫o que lhes proporcionamos鈥, e me pergunto se as vendetas que pontilham suas vidas n茫o s茫o, para eles, um modo de, de quando em quando, escapar do cinza do cotidiano禄. 脡 verdade que essas s茫o duas anota莽玫es furtivas.

Hoje os achuares abandonaram a lan莽a e o escudo 鈥揺les possuem fuzis鈥. Muitos deles aderiram 脿 Federa莽茫o dos Centros Xuares do Equador, organiza莽茫o ind铆gena muito influente no pa铆s, e rejeitam o etn么nimo 芦jivaro禄, termo que 茅 visto como colonial e racista.

O fuzil, tabu para a ca莽a

Isso n茫o impede sua 芦jivaridade禄 de se expressar. Prova disso 茅 o fato de que o fuzil, a nova arma de ca莽a e de guerra, torna-se 芦tabu禄 para a ca莽a se j谩 matou um homem na guerra. Ele poderia poluir a presa. 脡 preciso livrar-se dele a qualquer pre莽o, trocando-o com algu茅m da periferia que n茫o tenha tomado conhecimento do conflito.

O etn贸logo conta muitas hist贸rias nas entrelinhas, como o costume cotidiano do v么mito, a escolha de um 芦amik禄 (o amigo cerimonial), o 芦vampirismo禄 da mandioca ou o canto dos xam茫s, todos momentos raros de etnologia narrativa.

O pr贸prio t铆tulo, As Lan莽as do Crep煤sculo, mostra que o autor assimilou bem a filosofia antin么mica dos jivaros. De um lado, revela a descontinuidade dos dias e a continuidade do tempo, fala do pavor de ver os inimigos mortos retornarem para se vingar; mas tamb茅m, com a cumplicidade do autor, faz o voto piedoso da sobreviv锚ncia e a apologia da esquiva.

——————————————–

* Comentario publicado en el diario Folha de S茫o Paulo el domingo, tres de setiembre de 2006.

** Pieza del Museo Roscsen, de C贸rdoba, Argentina (www.museorocsen.org).

  • Compartir:
X

Env铆e a un amigo

No se guarda ninguna informaci贸n personal


A帽adir comentario

Tu direcci贸n de correo electr贸nico no ser谩 publicada.

Este sitio usa Akismet para reducir el spam. Aprende c贸mo se procesan los datos de tus comentarios.