Nov 16 2015
1511 lecturas

OpiniónPolítica

O 11 de setembro europeu

A estupefação com os atentados terroristas em Paris é proporcional à incapacidade em se admitir as verdadeiras causas desta barbárie.
O mundo inteiro √© afetado pelos desdobramentos da guerra travada pelas pot√™ncias mundiais contra o Estado Isl√Ęmico, a Al Qaeda e outras organiza√ß√Ķes terroristas. Mas esta n√£o √© uma guerra mundial, e os pa√≠ses que est√£o no seu centro causal e na arena dos combates n√£o enchem duas m√£os: EUA, Fran√ßa, Espanha, Inglaterra e alguns aliados.
Com suas guerras de domina√ß√£o e de explora√ß√£o no norte da √Āfrica e no Oriente M√©dio realizadas a pretexto de combater regimes tir√Ęnicos, as grandes pot√™ncias esgar√ßaram completamente a rela√ß√£o com o mundo √°rabe-mu√ßulmano. E, com isso, trouxeram para o continente europeu o mesmo inferno que instalaram nas ex-col√īnias.
H√° poucos dias, Tony Blair se desculpou pela ‚Äúpequena falha‚ÄĚ cometida na ocupa√ß√£o criminosa e ilegal do Iraque em 2003. Ele reconheceu que eram falsos os pretextos de George W. Bush de que o regime de Saddam estocava armas qu√≠micas de destrui√ß√£o massiva.
Apesar desta fraude, Blair [que com a confiss√£o deveria ser julgado pela Corte Internacional de Haia] mesmo assim considera v√°lida a guerra n√£o autorizada pela ONU contra o Iraque, que visava se apropriar das reservas petrol√≠feras e devastar totalmente a infraestrutura do pa√≠s, para depois os capitais estadunidenses e ingleses ‚Äúreconstru√≠rem-no‚ÄĚ.
No in√≠cio da ‚Äúguerra preventiva‚ÄĚ, como ficou conhecida a cruzada contra o ‚Äúeixo do mal‚ÄĚ desatada por Bush ap√≥s o 11 de setembro de 2001, apenas a Inglaterra, a Austr√°lia e a Pol√īnia atuaram diretamente na invas√£o do Iraque. Outros 45 pa√≠ses declararam apoio n√£o-material e n√£o-militar, e n√£o condenaram o descumprimento da decis√£o da ONU.
Nos anos subsequentes, v√°rios pa√≠ses ‚Äď dentre eles, de modo marcante a Fran√ßa ‚Äď passaram a buscar participa√ß√£o na partilha do butim das guerras. O pa√≠s governado por Fran√ßois Hollande inclusive foi com sede ao pote; foi mais realista que o pr√≥prio rei: em 2011, convocou uma coaliz√£o b√©lica da OTAN para invadir a L√≠bia e assassinar Muamar Kadafi, antes mesmo do Obama tentar obter autoriza√ß√£o congressual para atacar aquele pa√≠s.
As incurs√Ķes das pot√™ncias mundiais para combater o ‚Äúeixo do mal‚ÄĚ se replicaram nos √ļltimos anos, multiplicando a viol√™ncia, os conflitos e a di√°spora de milh√Ķes de imigrantes desesperados que tentam chegar √† Europa, onde s√£o repelidos com insuport√°vel inumanidade e desprezo. Aylan Kurdi, o menino s√≠rio de 5 anos, emborcado morto nas areias do litoral grego, √© a imagem tenebrosa desta realidade.
Este processo reabre feridas históricas, e reacende a memória da humilhação ancestral dos descendentes árabes e muçulmanos que, na França, representam parcela significativa da população total francesa. A cadeia de transmissão hereditária reserva aos descendentes árabes e muçulmanos o pior dos mundos na Europa: primeiro os avós e bisavós, depois seus pais, agora eles e seus filhos, assim como seus netos e bisnetos, estarão condenados à classe de sub-cidadãos.
As pol√≠ticas xenof√≥bicas e segregacionistas, juntamente com a inexist√™ncia de oportunidades iguais para os imigrantes e para os descendentes de imigrantes, ajudam a legitimar a cantilena doutrin√°ria do Estado Isl√Ęmico, que √© cada vez mais eficiente na coopta√ß√£o de jovens destitu√≠dos de perspectivas de futuro.
O ataque √† revista Charlie Hebdo em janeiro deste ano, tamb√©m em Paris, foi um sinal da mudan√ßa de padr√£o da a√ß√£o terrorista. A partir deste epis√≥dio, foram aperfei√ßoados e integrados os servi√ßos de intelig√™ncia e de monitoramento da Uni√£o Europeia e dos EUA. Apesar disso, no √ļltimo dia 13 o Estado Isl√Ęmico logrou perpetrar sete ataques praticamente simult√Ęneos num intervalo de apenas 40 minutos. Isso evidencia a complexidade e a intelig√™ncia operacional desta organiza√ß√£o, capaz de driblar os mais especializados servi√ßos de intelig√™ncia do mundo.
A resposta impulsiva das potências à barbárie terrorista da sexta-feira 13 de novembro é mais guerra, mesmo que não se saiba qual nação será o alvo ao certo. A espiral belicista, sozinha, além de ineficiente, agrava consideravelmente a violência e os revides terroristas. O assassinato de Bin Laden não arrefeceu o ímpeto da Al Qaeda, como tampouco diminuiu a capacidade operacional do terrorismo.
Ao inv√©s de promover a guerra de civiliza√ß√Ķes entre o ocidente e o islamismo, as pot√™ncias dominantes deveriam entender que o inimigo principal est√° nas pol√≠ticas empreendidas pelos seus governos com despotismo em todo o mundo, e de maneira mais acentuada no norte da √Āfrica e no Oriente M√©dio.
Estas pol√≠ticas s√£o o verdadeiro ninho da serpente; s√£o laborat√≥rios de multiplica√ß√£o do Estado Isl√Ęmico e de vers√Ķes deturpadas do Isl√£. O problema n√£o est√° no outro lado do Mar Mediterr√Ęneo, mas dentro das fronteiras do pr√≥prio continente europeu, como revela a identidade dos terroristas. Dos cerca de 30 mil militantes do Estado Isl√Ęmico, mais de 2 mil deles s√£o nacionais europeus. O horror desembocou na Europa de uma maneira perturbadora.
  • Compartir:
X

Envíe a un amigo

No se guarda ninguna información personal


    Su nombre (requerido)

    Su Email (requerido)

    Amigo(requerido)

    Mensaje

    A√Īadir comentario