Mar 7 2005
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Opinión

Stabat Mater

Aparecida en la revista Piel de Leopardo, integrada a este portal.

Stabat Mater -do Latim, ¬ęEstava a M√£e¬Ľ- s√£o as duas primeiras palavras de uma das mais belas cantatas de Bach. Texto e harmonia descrevem toda a dimens√£o da dor de Maria durante a crucifix√£o de Jes√ļs.

 
Bach comp√īs o Stabat Mater para uma orquestra√ß√£o muito simples, com dois obo√©s, um violoncelo e uma viola da gamba, apenas. Talvez querendo destacar toda a pureza e aus√™ncia de ostenta√ß√£o da cena da m√£e aos p√©s do filho querido, morto. E o resultado √© bel√≠ssimo, pois Bach, al√©m de genial compositor era um letrista de grande espiritualidade.

Existe composi√ß√£o mais inspirada que Jes√ļs Alegria dos Homens? Sabe-se que Mozart quando ouviu pela primeira vez o Stabat Mater, escondeu o rosto com as m√£os para conter as l√°grimas! E fico me perguntando onde estavam as m√£es de Bach e Mozart? Por que elas n√£o ficaram conhecidas, famosas? A resposta √© simples: elas estavam ocupad√≠ssimas em cri√°-los!

 
fotoPenso que n√£o pode haver maior dor para uma mulher do que assistir, impotente, ao sofrimento de um filho. Eis a√≠ a ess√™ncia do sentimento que une todas as mulheres: preservar os filhos dos sofrimentos, dos perigos, das priva√ß√Ķes, das tristezas, dos desconfortos!

 
H√° pouco tempo, passei por uma das mais fortes interpela√ß√Ķes em minha vida pessoal. Protagonista: uma menina, como tantas desta cidade, mal sa√≠da da inf√Ęncia para a adolesc√™ncia. Eu j√° tinha visto aquela menina em v√°rios lugares do bairro da Sa√ļde, onde moro. Mas, n√£o t√£o de perto como a vi na padaria Ronex, bem na esquina da avenida Jabaquara com a rua Paracatu.

Muito magra, descal√ßa, vestido largo e roto, sorriu-me mostrando os seus dentes alvos. Pediu-me para ¬ępassar no caixa¬Ľ os oito p√£es que pedira ao balconista de cara amarrada. E, como que carregando um trof√©u, saiu apressada, quase correndo, apertando contra o peito o saco de p√£es, feito uma m√£e que sai em busca de seus filhos. Ao encontro de seus irm√£os da mesma exclus√£o social!

 
Desde aquele dia, de forma recorrente, as lembran√ßas de minha inf√Ęncia v√£o e voltam. Foi no casar√£o da Pra√ßa Pedro de Alcantara Magalh√£es, em Muzambinho, Minas Gerais. L√° pude ver muito de perto a luta cotidiana de minha m√£e, dona Carmen Sylvia de Podest√° Botelho, em poupar das priva√ß√Ķes os seus quatro filhos.

Sozinha, sem ningu√©m para ajudar, ela dava conta de todos os servi√ßos dom√©sticos, al√©m dos trabalhos profissionais como costureira-modista. Mulher de um marido mau-humorado, morava com a sogra, que n√£o podia ser contrariada em nada. E, de sobra, com uma cunhada portadora de t√©dio existencial. Lia Sartre, em franc√™s! Hoje, quando pergunto a minha m√£e como conseguia conciliar tudo aquilo, sem ¬ęvirar a mesa¬Ľ, ela, apenas sorri um sorriso enigm√°tico. Como aquele da Monalisa!

 
Ao captar todos os √Ęngulos da figura de Maria, pode-se concluir que a mulher, na dimens√£o do Stabat Mater, n√£o √© outra coisa sen√£o o que faz de si mesmo para os outros. O filho de Maria, ao morrer pela reden√ß√£o da humanidade, inundou-a infinitamente com a gra√ßa transformadora e regeneradora. E com ela, todas as mulheres deste planeta.

O Dia Internacional da Mulher deve ser lembrado com afeto, com esperança e, sobretudo, com consideração!

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* Professor e Consultor de Empresas para Programas de Engenharia da Qualidade, Antropologia Empresarial e Gestão Ambiental. Membro da SBPC РSociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

(paulobotelho.com.br).

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