Mar 2 2012
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CulturaOpinión

Crônica do verão crônico.

O nosso verão, como em todo litoral brasileiro, “acontece” em dois momentos, com hordas de veranistas chegando ávidos de tudo. O primeiro, entre o dia 28 de dezembro e o dia 10 de janeiro, e o segundo, na semana do carnaval. Durante esses dois períodos tudo sai ou muda de lugar, e isso só seria bom se acontecesse na medida certa… o que nunca ocorre.| CARLOS GRASSIOLI .*

 

Educação para a vida deveria incluir aulas de solidão.
M. Santayama.

 

Por isso, então, por essa desmedida, há coisas do verão que vêm a calhar; outras, que vem pra avacalhar. Assim como na vida.

 

Além de possíveis expectativas frustradas no plano pessoal (porque as pessoas normalmente esperam mais do que aquilo que vão ver ou ter), em geral chove, embora —pasmem!— falte água nas torneiras. Sintomas inequívocos da incompetência do poder público e da crônica falta de educação do veranista que usa e abusa da água potável.

 

Sintomas que podem ser observados, também, no lixo que se acumula pelas ruas, cães na beira da praia, com ou sem donos, em verdadeiras carreatas em direção ao mar, com direito a buzinaço, e “trios elétricos” particulares a 200 ou mais decibéis, que resulta num som que me nego a chamar de música, porque de absoluto mau gosto, além de quadriciclos e jetskis pilotados por menores e (ir)responsáveis por tragédias que culminam em perdas de vidas de inocentes, entre tantos outros veículos do tipo ou “carrões” , que fazem com que as pessoas se sintam cidadãs “respeitáveis” pelo simples fato de serem possuidoras de tais “maravilhas”

 

A falta de respeito e de educação, esse mal maior e crônico, é quase absoluta! A poluição visual e sonora é a perder de vista; e narciso, então, é o deus da vez… ou do verão. Ou dos tempos modernos! O outro, o próximo, o pedestre, o vizinho, que se escafeda, que se exploda… “Não tô nem aí” é a palavra de (des)ordem.

Gosto muito e não conseguiria viver sem gente por perto, mas não desse modo… com quase total falta de bons modos.

 

Mas, como eu já disse, o verão, também vem à calhar e essa parte fica por conta da chegada de familiares e de amigos, além da dos meus vizinhos, que são também amigos queridos, com os quais convivo diariamente de forma tranquila e prazerosa.

 

Pessoas simples, que me privilegiam com suas visitas e, o mais importante, que me honram com seu comportamento exemplar, calcado sobretudo na boa educação.

 

Mas a caravana passou. Ah! Passou! E é quando eu paro de “latir” pra ficar de novo como gosto: solitário, me ocupando do meu viver simples, prosaico, dos afazeres da casa, escrevendo, lendo. Solto como cão sem dono, ou dono de mim mesmo, pela aldeia ou fazendo minhas caminhadas na beira do mar, que, com suas águas de março, normalmente de temperatura amena, privilegiam não só o nativo, mas aquele que aqui decidiu se aquerenciar e que aprendeu fruir da aposentadoria a parte melhor, que é permitir-se, mais do que perder tempo, perder-se no tempo.

 

E se as últimas aves de arribação já partiram, então é hora, também, de “lubrificar” minhas asas de ave migratória ou passar “sebo nas canelas”, pras viagens anuais que haverão de vir.

 

Se não me expandi “nos negócios”, expando-me, ao mesmo tempo em que me espalho, através das viagens que faço e que me permitem, como já escrevi, ampliar o círculo desse picadeiro chamado mundo.E é quando, também, eu tenho a certeza de ter ultrapassado a linha do horizonte que vejo daqui da minha casa, no alto do morro e de frente para o mar, de frente para o mundo.

 

E o mundo que começa na soleira da porta da minha casa não acaba “ali”, na linha do horizonte, porém mais além, além do mar.

 

No além-mar, lá onde fica a minha Pasárgada…
… onde as pessoas vivem bem, porque convivem bem.
Praia da Gamboa, Garopaba, SC, verão de 2012.

——
* Escritor

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