Jun 6 2009
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Opinión

Tragédia aérea: nova novela, ao vivo, 24 horas por dia

Carlos Grassioli*

Mais um acidente aéreo e não demorou muito para que surgissem os “sensibilizados” com a tragédia. Os mesmos que desprezaram ou dispensaram o sensacionalismo de sempre a tragédia das centenas de mortos nas últimas enchentes no Brasil. Mais uma vez, responsabilizam e criticam veementemente o governo brasileiro, embora o avião que caiu pertencesse à França. É impressionante como a mídia nacional estimula os brasileiros (que historicamente sofrem de um tipo de baixa auto-estima, por pertencerem a um país de 3º mundo) a darem um tiro no próprio pé, menosprezando e tratando de forma visivelmente preconceituosa seu Presidente. Simplesmente porque ele tem origem humilde.

Uma revista virtual, chamada CapitalGaucha (www.capitalgaucha.com.br) abriu hoje com a seguinte manchete na primeira página: Tratamentos diversos para tragédias em comum. A matéria, numa crítica severa, compara  a “civilizada” atuação do governo francês à “incompetente” atuação do governo brasileiro. E aproveita, fazendo coro à grande imprensa, para se queixar o quanto somos mal representados lá fora.

Pelo menos o atual Presidente dos Estados Unidos e a imprensa internacional elogiam nosso representante maior, o Presidente da República, e nos fazem sentir “menos inferiores”. Ao contrário da nossa  tão comprometida grande imprensa brasileira (muito mais interesseira do que interessada), que historicamente e por razões óbvias, prima pelo descaso quase absoluto com as classes menos ou nada favorecidas.

Considerando a manchete acima mencionada, poderíamos dissertar laudas e laudas sobre o tema: “Tratamentos diversos para tragédias em comum”. Mas vamos nos deter no mesmo assunto do qual trata a manchete: o acidente aéreo. E ao invés de compararmos a atuação do Presidente Lula  à do Presidente Sarkozy, cabe uma análise da atuação da imprensa brasileira: a diferença na cobertura desta tragédia em relação a outras tragédias daqui. Outras tragédias que aconteceram nas nossas barbas e que significaram perdas de centenas de cidadãos pobres brasileiros. Ou os pobres não são cidadãos?

Ou são considerados cidadãos somente as 260 vítimas do acidente aéreo, pois pertencem à classe média ou ao topo da pirâmide social? Portanto merecem, além de luto oficial, todo o espaço da mídia.

Quem morre de acidente aéreo, morre mais do que quem morre afogado ou vítima de balas da milícia do crime organizado?

Uma família rica ou de classe média sofre mais com a perda de um ente querido do que uma família pobre?

O povo francês se comoveu e demonstrou publicamente sua solidariedade, mas é importante ressaltar que a França  se diferencia muito do Brasil quanto à questão social.

Lamentável!… No Brasil, como na maioria dos países pobres, o tamanho de uma tragédia é medido tendo como dado determinante a cor da pele e o poder aquisitivo das vítimas. Quanto mais “bem nascidas” as vítimas, maior é a tragédia. E se forem ocidentais, cristãs, de pele clara e de heterossexualidade explícita, até o Papa se comove.

Não estou aqui defendendo governo nenhum. Estou aqui simplesmente aproveitando a manchete que eu li hoje, ao ligar o computador, para manifestar minha indignação e ir um pouco mais fundo na questão do tratamento diferenciado dado a quem perde a vida voando e a quem perde a vida afogando-se ou sendo soterrado dentro da sua própria casa.

O acidente aéreo sem dúvida foi chocante. Mas eu acho muito mais chocante viver num país onde a grande imprensa é tão discriminatória, tão sensacionalista e tão hipócrita. Ela possui um poder político imensurável. E deveria cumprir seu papel no processo de conscientização e formação da cidadania.

* Escritor.

 

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