Jun 4 2012
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Cultura

Carlos Grassioli / Saudades

Para meu sobrinho Juca.
O hábito de viver frente a uma belíssima paisagem que me privilegia enquanto espectador com uma fatia generosa de céu, terra e mar, e através da qual a natureza se mostra mais pródiga do que nunca, me permite aprender, entre outros ensinamentos, um pouco de eternidade e muito de infinito. Porém, mais do que tudo, eu aprendo a ser pequeno.

 

O mesmo me acontece em relação aos bons livros que leio, ou diante da imensidão de um céu estrelado

 

Frequentemente, e principalmente no verão, quando a noite é de lua nova e céu limpo, estrelado como agora, apago todas as luzes, me deito no gramado atrás da casa e fico olhando, sempre embasbacado, para o céu crivado de pontos de luz.

 

Fant√°stico, m√°gico e imensur√°vel… espelho, espelho meu, existe algu√©m menor do que eu?

 

Porque é deitado no chão, de costas sobre o gramado, me nivelando aos insetos e aos demais bichos numa espécie de redenção kafkiana do poder do homo erectus e com os olhos bem abertos em direção ao firmamento, que eu consigo enxergar melhor as estrelas, aprender um pouco mais sobre o infinito e sobre o ínfimo espaço que ocupo dentro do universo.

 

Eu acredito que n√£o √© nas ‚Äúalturas‚ÄĚ, como muitas vezes nos iludimos, mas a partir do r√©s do ch√£o ‚ÄĒdepois de ‚Äúter tirado todos os an√©is‚ÄĚ e deitados, t√©ti-a-t√©ti, de igual para igual com os bichos‚ÄĒ que nos elevamos, efetivamente, na escala humana e que atingimos o √Ęngulo, se n√£o perfeito, mais abrangente, n√£o s√≥ em rela√ß√£o ao tamanho do universo, mas a tudo que diz respeito √† exist√™ncia, √† condi√ß√£o humana.

 

Desta vez, al√©m de ‚Äúfilosofar‚ÄĚ bateu, em acr√©scimo, um tipo de saudade onde se mesclam, mais uma vez, beleza, tristeza… e poesia (isso sim, da condi√ß√£o puramente humana):

 

Primeira inf√Ęncia, sem luz el√©trica: de um lado, pobrezas; do outro… belezas. As noites pareciam ser muito mais escuras… e m√°gicas; e uma irm√£, crian√ßa tamb√©m, um pouco mais velha do que eu, n√£o por acaso chamada Deusa, em noites de vaga-lumes juntava alguns dentro de um vidrinho, pra depois, no escuro, jogar com eles cinco-marias .

 

Porque intu√≠a, j√°, a minha ‚Äúvoca√ß√£o‚ÄĚ, dizia-me que eram estrelinhas, dessas que ficam piscando, e que ela havia recortado em pedacinhos de c√©u, com uma tesoura, numa parte da ab√≥bada celeste que s√≥ ela conseguia alcan√ßar.

 

E eu acreditava, é claro!

 

Inocência? Talvez, e embora a tenha perdido muito cedo, até hoje, sexagenário, eu acredito nisso. Porque quando minha irmã dizia que jogava cinco-marias com estrelas, mais que licença era uma verdade poética.

 

N√£o obstante tenha tentado in√ļmeras vezes, nunca consegui, como ela, alcan√ßar as pequenas estrelas, essas que ficam piscando. Porque essa humana Deusa, minha irm√£, era, poeticamente, bem mais alta do que eu e, de t√£o sens√≠vel, partiu deste mundo bem antes de mim.

 

Nunca esque√ßo a √ļltima vez que a vi, no leito do hospital, um pouco antes de deixar de existir, sem d√ļvida alguma um dos dias mais tristes da minha vida. Dona de um senso de humor incomum e com voca√ß√£o nata pra palha√ßa, destacava-se, tamb√©m, por sua sonora e gostosa gargalhada; e ao tentar esbo√ßar um √ļltimo sorriso, escancarou toda a tristeza de quem sabe que est√° partindo contra a vontade. E pro nada!

 

Ali também constatei que não existe tristeza maior do que a expressa num sorriso triste!

 

Embarcando na mesma po√©tica √† que esta noite me remeteu, e olhando pro c√©u cheio de estrelas, procuro uma, pequenininha, l√° num cantinho, piscando maroto… e √© ela, minha irm√£. E se eu tenho alguma d√ļvida… ela ent√£o solta sua inconfund√≠vel gargalhada, que ecoa pelo cosmos, pelo universo afora! E eu rio junto.

 

Em seguida, de pura saudade, eu choro… e com os olhos rasos d‚Äô√°gua, estrategicamente semi-fechados, eu consigo, finalmente, alcan√ßar estrelinhas que piscam… nas l√°grimas que juntam uma p√°lpebra √† outra.

Praia da Gamboa, ver√£o de 2011.

* Escritor.

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